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PUNHO DE FERRO | Crítica com Spoilers

by on abril 6, 2017
 

Finn Jones como Danny Rand

Diz a sabedoria popular que quem espera sempre alcança. Mas quem é que alcança o que não se busca?

E a última primeira temporada do Universo Cinemático da Marvel para o Netflix (aqui apelidado de Marvel/Netflix) estabelece uma história complicada, de personagens complicados e um objetivo complicado a ser alcançado. Ironicamente, talvez tenha faltado um pouco mais de poder nos punhos daqueles que primaram por planejar a mais nova série da Casa das Ideias para streaming. Punho de Ferro é o primeiro acontecimento em Live Action da Marvel em 2017 (já que Logan e o universo dos X-Men pertence à Fox), e diz a que veio de forma morna.


Danny Rand
(Finn Jones) é um homem perdido por anos no mundo, dado como morto após um acidente que matou a sua família. O legado da família, a Rand Enterprises, se tornou o reino dos Meachums, uma família cujos membros evoluíram de parceiros comerciais dos Rand para únicos integrantes da cúpula da corporação. Esse talvez seja o primeiro grande pecado de Punho de Ferro: desde o início, a trama é bastante previsível. Por treze episódios você espera que em algum momento um plot twist vá redesenhar a lógica por trás dos acontecimentos da série, mas ele nunca vem.

Harold Meachum (David Wenham) esconde inúmeros segredos, sendo o patriarca dos Meachum e deixando a empresa sob atuação de seus dois filhos — Ward (Tom Pelphrey, que atua espetacularmente na série), um homem complexado e viciado, de personalidade fortíssima e ações intempestivas, e Joy (Jessica Stroup), que alterna desconfiança pós-retorno de Danny e superficialidade sobretudo no início da história. O arco dos primeiros episódios é o grande problema da série, e demonstra que seus autores falharam em dar a ela o andamento ideal: com um pouco mais de distribuição de cenas instigantes, de ação e a violência constante que tão bem caracteriza as séries da Marvel/Netflix, seria mais fácil ficar interessado quando tudo começa a se desenhar, ainda em seu início.

Colleen Wing, interpretada pela belíssima Jessica Henwick

Danny não está sozinho, e contará com a ajuda das personagens estabelecidas Hogarth (Carrie-Anne Moss) e Claire Temple (Rosario Dawson), além de Colleen Wing (Jessica Henwick), que também será seu par amoroso. Do lado dos combatidos, temos a Madame Gao (Wai Ching Ho), também já conhecida do universo da Marvel para o Netflix, e a adesão ao final do último arco do sensei de Colleen: Bakuto (Ramón Rodríguez).

Entendemos que, através do percurso deste universo compartilhado, as séries buscam uma causa para valorizar. Sendo Demolidor uma série mais voltada a uma ideia comum de série realista de super-heróis, valorizando a lei e a ordem, vemos claramente em Jessica Jones uma voz feminista bastante potente, refletindo os acontecimentos na vida de uma mulher marcada por traumas e uma personalidade tão forte quanto seus golpes. Luke Cage é representativo da cultura Black e de uma pegada um tanto mais rueira, inclusive com um combate em praça pública que encerrou um decepcionante final de temporada. E Punho de Ferro, na sua ideia mais oriental e representativa das artes marciais que os demais, poderia ter feito inúmeras homenagens aos grandes artistas enquanto contasse uma história convincente, com o extenso know-how de décadas. Pois, nem uma coisa e nem outra: a série parece oscilar mesmo em seus melhores momentos, deixando mais dúvidas do que certezas e sem grandes questionamentos que pelo menos incitem o pensamento da audiência. Cada golpe é coreografado e não deixa a impressão de realismo. Se você fala uma coisa, você é útil. Se você fala uma coisa e dá voltas, mas ao menos tenta causar uma reflexão, você é parcialmente útil. Mas se você não diz nada e só floreia o discurso, sem dar fim através dos meios, fica muito complicado de estabelecer uma comunicação. E esse é o grande xis da questão dessa série: o entretenimento existe de forma localizada, e quando a série opta por te fazer esperar, não acontece muita coisa.

Prometida para 2017, Defensores vem aí

É preciso observar, no entanto, que um dos poucos desígnios de quem oscila é que, em algum momento, há construção, por menor que seja. Muitos críticos especializados trouxeram uma ideia de que se tratava de uma das piores coisas que a Marvel/Netflix poderia conseguir, quase que culpando os responsáveis pela falha numa repercussão amplamente negativa. Ora, a série estabelece um herói, seus problemas, deixa mistérios para o futuro, mostra seus coadjuvantes e prepara o terreno para Defensores, série que estreará esse ano e mostrará os protagonistas dos títulos até aqui — Matt Murdock, Jessica Jones, Luke Cage e Danny Rand — diante da mesma câmera. Existe um grau decepcionante de frustração com o final da série e com o tempo gasto para contar a história de Danny, mas em nenhum momento a ideia é desonesta. Existiu e continua existindo um enorme exagero quando o assunto é crítica especializada. Basta um olhar atento para perceber qual o objetivo, qual a realização e qual a falha.

E apesar de todas elas, Punho de Ferro está aí e nos entregou algo — com certeza aquém da expectativa por um lado, mas indiscutivelmente pontuado em seus bons e inegáveis momentos, por outro.