Explicando por que os fãs gostaram de Batman vs Superman

Após Batman vs. Superman – A Origem da Justiça ter sido lançado, houve uma divisão de opiniões poucas vezes vista antes, criando uma verdadeira guerra entre os fãs que gostaram do filme e os críticos de cinema que reprovaram o longa da Warner, dirigido por Zack Snyder.

A obra tem realmente problemas – os próprios fãs reconhecem – e a Warner inclusive está repensando a continuidade de Snyder à frente do DCEU. Isso, no entanto, não impediu que a maioria dos aficcionados por quadrinhos (sobretudo os da DC) aprovassem o filme. Alguns, inclusive, o consideram um dos melhores filmes de heróis já feito.

Como isso é possível? Por que vemos tanta diferença entre a opinião dos críticos e a dos espectadores comuns? Vamos agora entender esse outro lado, e ver por que os fãs gostaram sim do filme. Muitos deles amaram, inclusive.

batman_h4dItVIZack Snyder:

Ao contrário dos críticos, os espectadores comuns não têm problemas com Snyder. Pelo contrário, gostam de seu estilo e de seus maneirismos. Isso ocorre basicamente por dois motivos: a) Snyder procura emular fielmente aquilo que é visto nos quadrinhos, e isso agrada os fãs, obviamente. B) Os problemas técnicos decorrentes das escolhas de Snyder não são percebidos pelos espectadores comuns, que, assim, não se incomodam com eles (afinal, se não conhecemos as “regras” de cinema que estão sendo “quebradas” pelo diretor, não temos como nos aborrecer com elas).

Assim, enquanto a maioria dos críticos já entra na sessão para ver Batman vs Superman com o pé atrás, só por ser um filme de Zack Snyder, os fãs, pelo contrário, já vêem isso como algo positivo, pois sabem que ali está um diretor que “fala a língua das HQs”, e isso é algo que eles querem ver.

É sabido, nos círculos técnicos de cinema, que Snyder quebra algumas das “regras do bom cinema”, podemos assim dizer. Ele tem problemas com o ritmo dos filmes, por causa da edição, por exemplo. Também cria cenas problemáticas em termos técnicos (enquadramento, ângulo, disposição dos elementos, etc.) para privilegiar poses dos personagens.

Mas até onde isso é um problema de fato? Em 300 e em Watchmen, por exemplo, essas características snydeanas compuseram as obras de forma totalmente coerente e não foram consideradas dissonantes.

É evidente que BvS é um filme mais “real” e menos “cartunesco” que os outros dois citados, e até mesmo por isso Snyder pegou mais leve nos seus maneirismos, mas ainda assim é um filme fantástico, de super heróis, o que deixa o tom aplicado pelo diretor bastante adequado ao longa, não soando exagerado diante dessa temática. Pelo menos não a ponto de ser algo considerado ruim.

Death-of-SupermanReferências:

O filme BvS está recheado de referências aos quadrinhos e animações da DC, e também, ao DCEU que ainda não foi apresentado em sua plenitude. Esse fanservice todo acabou se transformando em um problema para muitos críticos, enquanto que fez o fãs vibrarem nos cinemas.

A cena do Flash, por exemplo, pode sim ser considerada um erro técnico dentro do filme, por conta de não ser possível saber do que se trata sem o conhecimento do multiverso DC dos quadrinhos. Porém, para o fã, ela funciona e muito bem.

Cabe aqui esclarecer que muitos críticos não viram com bons olhos os kilos de referências não por não saberem do que se trata, mas sim porque, para eles, um filme precisa funcionar por si próprio, independente de conhecimento prévio do material da qual ele se inspirou.

De fato, conceitualmente, esta avaliação está correta e consta em todos os manuais de cinema, porém, para o fã de quadrinhos, principalmente aquele que identifica as referências, isso não só não é um problema como é um virtude.

Para o fã de HQs, ver cenas como a do Flash torna-se um deleite, por tudo que ela representa e invoca, por seu significado em termos de estrutura do Multiverso DC e por todos os conceitos dos quadrinhos que aquela cena representa. É por cenas como aquela que o fã assiste um filme desses.

Assim, do mesmo modo, a luta entre os dois personagens principais, apesar de ter basicamente os mesmos problemas vistos na revista O Cavaleiro das Trevas, da qual se inspirou (ainda que tenha sido melhor engendrada no longa do que na HQ de Frank Miller), acaba se tornando um momento quase mágico para o fã de quadrinhos, sobretudo o fã daquela revista e, ainda mais, o fã do Batman, que sonhou a vida toda com aquela cena, e finalmente pode vê-la acontecer na telona.

Do mesmo modo, ver a “Santíssima Trindade” da DC reunida pela primeira vez em um filme, foi, para muitos, motivo de regozijo e encobriu até os problemas relativos à maneira resumida como a personagem Diana Prince foi introduzida no filme.

BvSO filme funcionando por si só:

O problema das referências e da necessidade de se conhecer as revistas e animações da qual elas se remetem, pode ser visto por um prisma menos pejorativo daquele que alguns críticos usaram.

Comparemos o caso com Star Wars, por exemplo.

O filme Episódio VII – O Despertar da Força, salvo raras exceções – e um problema relativo aos conceitos inerentes à base Starkiller – foi aclamado pela crítica. Alguns chegaram até a considerá-lo o melhor filme da franquia que mudou o cinema e a cultura pop mundial.

Muito do furor dos críticos a respeito de O Despertar da Força advém justamente de toda a cultura inerente a Star Wars. Muitos críticos passaram a gostar de cinema, por causa de Star Wars. Esses mesmos críticos não ficaram muito contentes com os episódios prequels (I, II e III) e viram no VII seu “primeiro Star Wars de verdade” no cinema.

Estão vendo quantos elementos alheios ao Despertar da Força já temos aqui, ajudando na avaliação da obra e contribuinte com a experiência de assisti-la?

Assim, uma cena que tecnicamente não tem “nada de mais”, torna-se um momento marcante, emocionante e até mesmo catártico, quando Rey finalmente encontra Luke Skywalker e lhe mostra “o” sabre de luz, que foi dele e, antes, de seu pai, Anakin (ou, como todos nós – e no resto da galáxia – aprendemos a amá-lo, Darth Vader).

O poder daquela cena, e do filme todo de um modo geral, tem muito a ver com a bagagem cultural de Star Wars que adquirimos nos últimos trinta anos, seja com os filmes, seja com o chamado Universo Expandido (o antigo – Legends – e também o atual). Ninguém se emocionou na cena final por conta daquilo que foi mostrado apenas no filme Despertar da Força, mas sim por tudo o que aquela cena significa em termos da mitologia de Star Wars.

Ou seja, sem os elementos alheios ao filme, suas referências diretas e indiretas e o prévio conhecimento dos outros filmes e dos elementos do Universo Expandido, o mesmo não funcionaria tão bem.

Outro exemplo pode ser dado lembrando-se de Episódio V – O Império Contra Ataca. Em uma cena em Bespin, os personagens Han Solo, Leia e Chewbacca são “traídos” por Lando Calrissian e entregues a Darth Vader e o caçador de recompensas Bobba Fett. Na cena em que encontra os antagonistas, Solo saca seu blaster e atira em Vader, que para os tiros com a mão e ainda arranca a arma de Solo, com a Força.

Quantos críticos – e até mesmo fãs – sabem que ali, Vader usou uma habilidade/poder inerente à Força que permite absorver energia concentrada? Essa habilidade inerente às técnicas tutamini – relativas à absorção de energia – só é conhecida, basicamente, pelos leitores de livros Star Wars ou praticantes de RPG com a temática da saga. Ainda assim, a cena jamais foi criticada por não explicar o que Vader estava fazendo naquele momento (nem como ele fez aquilo).

Isso mostra que é possível termos em um filme, referências e situações oriundas de outras fontes, que se conhecidas permitem uma melhor aceitação do longa, sem que, necessariamente, isso seja um defeito do filme, caso esse conhecimento prévio não exista por parte do espectador.

Se os críticos se permitem avaliar o Despertar da Força com base em toda essa gama de conhecimento, sensações e emoções que não fazem parte unicamente do filme, ou seja, se admitem que o Episódio VII não é autocontido nesse sentido, então por que Batman vs Superman também não recebe essa anuência e a ciência de elementos externos ao filme deixa de ser um problema?

276316_Papel-de-Parede-Desenho-Engracado-do-Batman_2048x1536 (1)Análise descontextualizada:

Outra coisa que pudemos notar é que alguns críticos analisaram o filme “esquecendo-se” que se trata de uma adaptação de história em quadrinhos e que é um “filme de super herói”. É verdade que alguns fatores de roteiro foram problemáticos além desse contexto, mas outros, também criticados, só fazem sentido se levarmos em conta uma suspensão de descrença necessária à aceitação de situações inerentes a super heróis.

Assim, o odiado Apocalipse, é ao mesmo tempo um defeito terrível para o crítico, e um fator de alegria incomensurável para o fã de HQs. É claro que um “monstro” quebra um pouco a suspensão da descrença até ali mantida pela abordagem “real” do filme (característica dos filmes de heróis da DC desde os Batman de Nolan), mas ainda assim, trata-se de um fator muito comum nos quadrinhos, principalmente nos de super-heróis, não se constituindo em um problema conceitual por si só.

Deste modo, ainda que o roteiro do filme não agrade os críticos na maneira como introduz a criatura e na conseqüente união que faz acontecer entre os heróis, precisamos lembrar de que trata-se de uma situação quase que cotidiana nas aventuras desses mesmos heróis nos quadrinhos.

Esta situação evidencia que a análise de um filme desses precisa ser contextualizada, considerando-se esses fatores todos. Não se pode analisar Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, da mesma maneira que se analisa o filme Batman Begins, por exemplo. O filme de Nolan é sobre um vigilante mascarado – que por “coincidência” é o famoso Batman – mas inteiramente calcado em parâmetros da “vida real”, enquanto que BvS é praticamente uma história em quadrinhos transportada para as telonas.

São coisas diferentes, apesar de parecerem quase iguais.

Da mesma maneira, outras situações criticadas não parecem fazer sentido se a análise não for adequadamente contextualizada em termos comparativos.

Por exemplo, a personalidade tresloucada (psicótica) de Lex Luthor também foi um problema para os críticos. Mas isso se dá porque esperavam ver ali o Lex Luthor “clássico” das HQs (e dos filmes antigos). Se fizermos um exercício em que hipoteticamente nunca antes houve um Lex nem nas HQs e nem no cinema, e o vilão do filme BvS fosse esse apresentado por Snyder e Jesse Eisenberg, essas críticas não exisitiram, pois a performance do ator e a caracterização do personagem (sem levarmos em conta a versão canônica) não possuem problemas. Temos aqui então uma análise descontextualizada.

lex-luthorAlguns dos problemas não são problemas se considerados os fatores adequados:

A mesma lógica acima pode ser aplicada à caracterização do Superman. De fato, o Kal-El dos filmes do Snyder não é o mesmo modelo de caráter, liderança e comportamento das HQs. Mas isso não é um problema, pois nesses filmes, esse é o Superman que nos entregam. O fato dele ser diferente da sua versão clássica nos quadrinhos e nas animações não pode ser um defeito por si só. É apenas uma diferença.

Alguns dos problemas que os críticos encontraram – inclusive os críticos que também são fãs e leitores de quadrinhos – dizem respeito justamente à essa alegada “infidelidade” dos personagens em relação às suas versões comumente aceitas como “padrão”. Mas, como vimos, isso não é necessariamente um problema.

O Batman das HQs, por exemplo não seria tão violento e bruto quanto o que aparece no filme (que inclusive mata alguns oponentes), além de ser mais “esperto” que o Batman de Affleck, que se deixa manipular facilmente por Lex Luthor.

De fato, há diferenças conceituais entre os personagens e suas versões mais aceitas nas revistas e animações, porém, é necessário se considerar que, dentro do universo criado por Snyder, aquelas é que são suas versões “certas”.

Aqui cabe o lembrete de que se os críticos não gostam das referências externas – principalmente as ligadas às HQs – então não deveriam comparar os personagens do filme com suas contrapartes dos comics e dos cartoons.

Em BvS, as atitudes do Batman são coerentes com sua maneira de pensar e agir, dado o que nos é mostrado do personagem. Até o fato dele matar oponentes está bem contextualizado e faz sentido. Isso não corpusca o Batman nem fere seu conceito como super herói no filme.

Na revista O Cavaleiro das Trevas, de Fank Miller, que serviu de confessa inspiração para pelo menos metade do filme, o Batman também é mais bruto e violento do que sua versão “canônica” (desconsiderando-se o conceito de multiverso mais recente da DC). E isso não tornou a caracterização do Batman na revista um problema, propriamente dito, pois na história, está tudo contextualizado.

Do mesmo modo o Superman de BvS é basicamente o mesmo do filme anterior, apenas um pouco mais experiente, mas com a mesma personalidade. De fato, é um Superman diferente daquele das HQs, mas é um Superman que faz sentido dentro do DCEU, diante do que nos foi mostrado dele. Não é um Superman que já aceitou seu legado de deus entre mortais e que já sabe lidar com esse peso e a responsabilidade que isso traz. Ainda é um Superman cheio de dúvidas, incertezas e que ainda age sem a completa noção das conseqüências de suas atitudes.

Não é um Superman que já está pronto para considerar que a Terra e os humanos são mais importantes que sua amada. Aliás, seu sacrifício se dá mais por Lois que pelo planeta em geral, o que mostra que o personagem ainda não evoluiu ao patamar “clássico” que dele esperamos (podendo isso ocorrer após seu “Retorno”), e essa situação faz a rima conceitual com a cena do Flash, cujo significado muitos não entenderam, ainda que tenham percebido se tratar de algo relacionado ao multiverso.

Com relação aos seus poderes, sua reação “humanamente lenta” em alguns momentos, principalmente na luta contra o Batman, ora, é o mesmo problema visto na revista O Cavaleiro das Trevas, e a obra de Frank Miller (novamente usada como comparação, pois foi usada como fonte de inspiração do filme), nem por isso, deixa de ser considerada uma das maiores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Trata-se apenas de uma opção editorial.

batmanvssuperman-1A comparação com os filmes da Marvel:

Outro problema – para os críticos – que na verdade não deveria ser um problema, é analisar os filmes da DC do ponto de vista de quem já está familiarizado com os filmes da Marvel, e gosta muito deles. Ainda que isso possa ocorrer de forma inconsciente.

Não se trata aqui, veja bem, de dizer que um estilo é melhor que o outro, ou que os filmes de uma são melhores que os filmes de outra. A questão é que, isso é sabido, os filmes da Marvel são muito mais “leves” – se é que podemos dizer assim – que os da DC. Ou então, abordando de outra maneira, os filmes da DC estão bem mais “sombrios” que os da Marvel.

Além disso, os filmes da Marvel já fazem parte do universo cinematográfico dos críticos, que se habituaram a ele e ao “padrão” por ele instituído.

Essa diferença conceitual, que não deveria ser um problema, pode se transformar em um, caso o crítico assista BvS esperando um clima de leveza e humor similar a Vingadores, por exemplo. Aliás, algumas críticas pegaram nessa tecla, da alegada “ausência de humor” do filme de Snyder, o que não poderia ser considerado um problema por si só, pois nenhum filme deveria deixar de ser considerado bom por ausência de algum fator – qualquer um – como humor, suspense, drama, etc.

O interessante é que a abordagem mais soturna e realista da trilogia de Nolan, por exemplo, não foi criticada por essa questão, e trata-se basicamente da mesma ambientação vista em BvS. O que antes era uma virtude, para alguns, passou a ser um defeito.

Não que os críticos não tenham gostado do filme apenas por isso ou somente por conta de uma eventual comparação com o tom dos filmes da Marvel. Não é isso. Mas é evidente em muitas críticas, que houve uma comparação entre a abordagem de ambas e que houve frustração quanto ao tom mais sóbrio e soturno de BvS. E isso não deveria ser um problema.

Batman-v-Superman-Trailer-Affleck-BatsuitConclusão:

O filme Batman vs Superman tem problemas, e ninguém (ou quase ninguém) nega isso. Mas também tem virtudes. Entretanto, para os fãs de quadrinhos – sobretudo os fãs do Batman, do Superman e da Mulher Maravilha – o filme funciona, e bem.

Funciona porque os elementos erráticos presentes são suplantados pelos elementos que deram certo, com a ajuda da contextualização da obra em termos de quadrinhos e super heróis, além, evidentemente, do fator emocional que representa ver a Trindade nas telonas.

Além disso, é comum que alguém, mesmo com a ciência da existência de problemas, ainda assim goste de algo. Isso é “gosto”. Do mesmo modo não somos obrigados a gostar de algo apenas porque tecnicamente é impecável. Um filme brilhante tecnicamente pode não cair no nosso gosto, podemos achá-lo chato ou diferente daquilo que esperamos em um filme. Isso é “gosto”.

Ou seja, podemos traçar novamente o paralelo e dizer que os problemas de Despertar da Força, inerentes à arma Starkiller, não foram suficientes para que a maioria deixasse de gostar do filme. Aliás, a maioria dos fãs de Star Wars simplesmente amou o Episódio VII, mesmo com alguns problemas. Muitos críticos, da mesma maneira, assim o fizeram.

BvS não é o melhor filme de heróis já feito. Dá para se dizer que, em termos técnicos, ele fica atrás de obras como o filme original do Superman de Richard Donner, e os dois primeiros filmes do Batman de Cris Nolan, por exemplo. Também fica atrás do primeiro Homem de Ferro e do segundo Capitão América, em termos técnicos e desconsiderando-se uma comparação temática e de abordagem entre os dois “universos”.

Do mesmo jeito, Episódio VII não é o melhor Star Wars já feito. Mas funcionou perfeitamente para os fãs.

Assim como ocorreu com o recente filme da franquia criada por George Lucas, Batman vs Superman também pode ser apreciado como um bom filme de super heróis e, para quem esperou a vida toda para ver o Morcego e o Kryptoniano juntos em uma batalha (ou enfrentando-se) e é fã de HQs, o filme foi muito bom.

Além disso, BvS funciona bem como uma seqüência do bom O Homem de Aço e como o início do Universo Cinematográfico DC, e também como o embrião da formação da Liga da Justiça.

Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

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