OPINIÃO – Você não precisa, mas as vezes deveria sair um pouco dos gibis Mainstream

Calma, ninguém está aqui querendo ditar o que você precisa ou não ler e consumir para se tornar “O leitor de quadrinhos”. Sério, esse não é o intuito desse texto.
Os nosso amados gibis de heróis são na maioria das vezes a grande porta de entrada para diversas pessoas, são quase sempre eles que prendem o leitor a ponto de deixarem o corriqueiro de lado e se tornarem assíduos na hora de consumirem a nona arte, e isso é algo que poucos matérias tem o poder de fazer.

Como tudo na vida, o gibi também passa por fases, e chega num momento que precisamos explorar novos horizontes, perspectivas e premissas e para isso acontecer nada melhor do que sair de nossa zona de conforto, não é mesmo?

Quanto mais longe dos holofotes menos amarras editorias, o que cá entre nós, é uma das maiores influências em cima dos grandes títulos do Mainstream, e é pensando nisso que essa lista foi feita, Por que afinal, nem só de heróis viverá o leitor:

 

A Diferença Invisível, por Mademoiselle Caroline e Julie Dachez

Marguerite sempre se sentia diferente, deslocada, mas não sabia a explicação. Gritaria? Nem pensar. Lugares cheios? Credo! Mas tudo mudou quando ela finalmente descobriu seu “problema”.
Existem situações, onde por mais que nos esforçamos além do possível, não conseguimos realizar com êxito, nos causando frustrações atrás de frustrações, mas em algumas vezes, simplesmente não é necessário. E é exatamente esta a mensagem que o quadrinho tenta passar: Mudanças nem sempre são coisas boas.

Julie e Caroline trabalham com um roteiro que se desenrola suavemente, sem pressa ou grandes pretensões. Aqui não há necessidade de grandes dramas ou frases de efeito, pois o mérito da história é nos dizer que é normal ser diferente. Por ser uma Síndrome um tanto quanto desconhecida (Síndrome de Asperger) em alguns momentos parece que estamos no meio de uma aula sobre comportamento humano, mas não se engane o roteiro e a arte tratam o leitor com o devido respeito, e entregam uma história sentimental, que fala sobre aceitação, diferenças, casualidades e a falta de empatia com o próximo. A Diferença Invisível nos mostra que ser “anormal” e ser feliz consigo mesmo, em uma sociedade onde pessoas buscam tanto ser aceitas, é realmente genial.

 

Pílulas Azuis, por Frederik Peeters

Fred, um homem comum de meia idade, se vê no meio de um relacionamento quase inevitável com uma mulher fantástica, mas existe apenas um porém: Cati é soropotiva.
Já pararam para pensar sobre o que seria o famigerado “amor”? Borboletas no estômago? Perca da fala ao se deparar com a pessoa? Estupidez? Trapalhadas e mais trapalhadas? Seria tudo isso, e mais um pouco, se estivéssemos falando de algum filme de comédia romântica hollywoodiano. Coisa que Frederik ao contar esta história, tenta fugir ao máximo. Em Pílulas Azuis nos deparamos com a realidade nua e crua, os altos e baixos, a rotina, a alegria e as tristeza de ter uma vida à dois, as risadas, as brigas, as doenças… O HIV.

O roteiro nos entrega uma história real, sem floreios e extremamente sincera, que quebra preconceitos e clichês impostos pela sociedade, mas ele não esfrega na nossa cara nada, muito pelo contrário, é delicado e atencioso ao demonstrar em situações cheias de tensão que nós sabemos muito pouco sobre a AIDS, e muitas vezes não procuramos entender sobre esse universo. Pílulas Azuis trata de assuntos genuínos e complicados, e fala com maestria sobre a confusão da simplicidade que reside no amor.

 

Astronauta: Magnetar, por Danilo Beiruth

O Astronauta sai para mais uma missão espacial, e dessa vez irá coletar informações sobre uma das maiores raridades espaciais: o Magnetar! Trazer os personagens icônicos de Maurício de Souza para uma pegada mais adulta, com toda certeza foi uma das maiores ideias na literatura brasileira atual.

É extremamente gratificante ver os personagens que acompanhamos desde criança, ganharem uma releitura nas mãos de talentosos artistas brasileiros. E aqui em Astronauta, o primeiro da leva, não seria diferente.

Danilo sabe balancear muito bem seu roteiro, que varia bem entre as homenagens e as novas abordagens, desde as cores escolhidas até os temas como solidão, culpa e arrependimentos, que são inseridos e trabalhados com delicadeza e respeito ao leitor e ao legado do personagem.

A arte é bonita e fluída, combinando perfeitamente com o roteiro e nos entregando belíssimos quadros, que com certeza irão soltar um: UAU! dos leitores. Mas se engana quem pensa que é uma obra pesada e dramática. Não é. É o início de uma aventura, o início de uma nova fase para os nossos personagens tão adorados, e gostaria de dizer: Que belo início!

 

Já Era, por Felipe Parucci

Regina esta cansada de tudo que a sociedade lhe impõe, trabalhar o dia inteiro aturando um chefe escroto? Credo. Necessidade de ganhar grana a qualquer custo? Tô fora! Mas tudo isso muda a partir do momento em que Regina é sequestrada por aliens, ou será que não mudou tanto assim?

Com um humor extremamente ácido, o roteiro nos apresenta seus pontos e os trabalha de maneira exemplar, levantando questionamentos sobre como a nossa sociedade consagra a futilidade mas deixa as coisas pequenas de lado, fazendo-as escassas. Em uma sociedade que prega pelo glamour, qual é o sentido de lutar contra tudo isso?
Os desenhos beiram o cartunesco e flertam abertamente com a premissa do roteiro, trazendo fluidez e leveza à história, deixando o que seria temática pesada interessante para o publico, nunca se tornando maçante.
Já Era é mais uma prova que os quadrinhos brasileiros caminham em direção ao sol e não ficam para trás no quesito qualidade aos outros continentes.

 

Entre umas e outras, por Julia Wertz

Ser adulto é fácil? Errado! E é exatamente isso que Julia precisou falar para os outros, com uma história extremamente divertida e honesta sobre as dificuldades de transitar da adolescência para a vida adulta.

Liberte-se dos clichês pois isso não acontece aqui. Você não verá uma jovem que sofre, aprende e ganha na vida, encontra um emprego dos sonhos, a pessoa amada e um cachorro chamado Thor. Não, a vida muitas vezes não é assim, e quase sempre a gente demora -e muito- pra aprender como se jogar esse RPG chamado Vida.

Em meio à muitas escolhas erradas, tragos de bebida, palavras de baixo calão e decepções, Julia nos mostra com um roteiro afiado, humor negro e jocoso, como a vida muitas vezes é: Uma ingrata. Em meio à muitos devaneios e situações cômicas, Entre umas e outras nos levanta o seguinte questionamento: Precisamos realmente viver com tanta pressão?

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