OPINIÃO | Um Tio Drew que pouco acertou a cesta

Qual o objetivo da arte? Em que sentido a criatividade deve se manifestar?

A arte é um direito de todos, mas teremos todos o dever de abraçar toda forma de arte, bastando ser honesta? Ou tudo depende do nosso gosto?

A Pepsi, na forma da sua bebida Pepsi Max, manteve a iniciativa de Marketing em torno de uma lenda senil das quadras de basquete de rua americano — ninguém menos do que Kyrie Irving faria o papel principal. O jogador da NBA, atualmente no Boston Celtics e ex-campeão pelo Cleveland Cavaliers na temporada 15-16, mostra sua habilidade após sua aparência envelhecida fazer os colegas de quadra o subestimarem. O sucesso foi tal que eles se permitiram amplificar a mensagem na forma de um longa-metragem.

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Kyrie Irving é o velho Drew no filme de Stone III

Assim nasceu Tio Drew (Uncle Drew, no original), uma comédia Black e sem muitas pretensões que homenageia o mundo do basquetebol, se utiliza do humor para inserir o contexto do filme e apresenta várias estrelas e referências a ídolos de todas as épocas. Ainda no início, temos brincadeiras com o logotipo da NBA (o homem com a bola na mão é uma render em torno de Jerry West, lenda do Los Angeles Lakers) e com o gesto de negação do congolês Dikembe Mutombo, comum nos frequentes momentos de toco, e com o Hot Sauce, lenda do basquete de rua focado na exibição — o chamado Streetball. Charles Stone III assina o trabalho como diretor após Drumline (2002), Ouro Branco (2002) e O Rei do Jogo (2004), explorando a comunidade Black e suas excentricidades e as potencializando o tempo inteiro. Mas apesar de motivação louvável quando deixa de ser meramente comercial, pois afinal o basquete é um esporte interessantíssimo e a NBA possuem muitos fãs mundo afora, o filme é pautado por várias escolhas ruins.

Desde o elenco, contando com comediantes que rivalizam um com o outro sem terem qualquer nível de química entre eles, passando pelo enredo ultra previsível (porque já é possível inferir elementos do final ainda nos primeiros minutos de exibição), mas principalmente pela quantidade absurda de clichês envolvidos nos acontecimentos pelo filme. Os diálogos ficam alegóricos e cansam rapidamente. É possível dizer, com toda a honestidade, que há muito pouco a ser lembrado nesse filme com base nos atores e atrizes a não ser pelo fato de que são jogadores famosos, como Shaquille O’Neal; a impressão que fica é que a preocupação era a ocupação dos cargos por personalidades envolvidas com o basquete e com a comédia, e não com uma trama cativante e empolgante de verdade, embora ainda assim haja alguns momentos que sejam diferentes e precisem ser enaltecidos pela inocência. A cena de Boots e seu tênis é um exemplo.

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A voz do protagonista é incrivelmente forçada porque Kyrie Irving não é ator, e nem mesmo o cuidado de processar a voz do craque do Celtics a produção teve. E aqui reside um outro problema: não houve preocupação com verossimilhança alguma. E isso fez com que os momentos de drama fossem inesperados e complicassem a interação com eles. É preciso zelar pela conexão com o espectador e, a não ser que a expectativa seja muito baixa, o filme vai acabar valendo mais pela tentativa do que pela proeza quando a produção não se toca nas escolhas que faz. São pequenas coisas, sim, mas que se somam.

O roteiro do filme se complica no fato de que, enquanto o primeiro ato apresenta bem os personagens e as motivações, não traz novidades ao segundo e nem dá velocidade à descoberta da complicação — aquela que se apresentará como o grande obstáculo do protagonista. Os acontecimentos soam forçados e, na real, as novidades são raras. Não é a primeira vez em que encontramos um protagonista cético diante de gente incrivelmente talentosa, ainda que nos termos certos, como no caso dos personagens do longa. Isso, junto às piadas fora de Timing e à abordagem do humor como fim, e não como meio, dá ao filme uma atmosfera infantil demais em diversos momentos.

Nem mesmo a trilha sonora salvou o filme que, salvo a liberdade artística que todos temos, não preenche as expectativas de um fã de basquetebol realmente bem informado. Tio Drew diverte quem não tem grandes pretensões, assim como o título, e quem no auge da falta de representatividade observada no mundo atual, opta por se cegar aos erros em detrimentos dos acertos. Tio Drew tinha tudo para ter boa nota numa trama que poderia ser bem estruturada, com boas atuações e motivação clara. Se eles formam de fato boa parte da história recente do basquete, filmes como esse não formam a imagem dos bons títulos que enaltecem esportes populares e a cultura Black. Ou melhor: talvez nem tivesse como obter boa avaliação. A arte é um direito de todos, mas a propaganda travestida de arte pode até ofender os olhos mais atentos, não é mesmo?

Afinal, como o que mais soa esse filme, senão como uma tentativa comercial falha de divulgação de um viral já (re)conhecido?

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Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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