OPINIÃO | Um Perfil Para Dois: crítica sem spoilers

0

A tendência de tantos de nós quando o assunto é a velhice, a terceira idade e as mudanças advindas desta era nada esperada, é a de repulsão. É comum observarmos o quanto as pessoas optam por nunca se sentirem velhas, como se o velho fosse algo necessariamente inútil, destruído e datado.

Enfraquecido.

Um camarada terrivelmente talentoso e francês, chamado Stéphane Robelin, teve a clareza e a astúcia de trazer à tônica da idade avançada um viés bastante suave, digno e até crítico no que tange às escolhas que a sociedade faz para as pessoas velhas. Por que mostramos o idoso desta forma? É graciosa a forma como Um Perfil Para Dois (Un profil pour deux, no original) destaca um personagem que, ainda que longevo, tem muito charme e carisma agradável. O ator que interpreta o protagonista é Pierre Richard (e é seu xará de primeiro nome), Le Grand Blond, que nos presenteia com uma atuação digna de aplausos.

Pierre é agorafóbico e viúvo. O velho homem se dá conta de que, a partir de certo ponto em seu luto, é necessário conhecer um novo alguém. O problema é que, até por limitações no manuseio do mundo digital, ele acaba por submeter a foto do perfil de um outro homem, muito mais jovem, no que deveria ser o seu. E ele acaba por conhecer e flertar com uma moça, coisa que o mundo digital só disfarçará enquanto houver um chat no mundo virtual. O que aconteceria numa situação cara-a-cara? O filme trata de experimentar inúmeras situações inusitadas e de riso leve, explicando o quanto a química entre um jovem e um idoso podem contribuir para criar circunstâncias inacreditáveis — especialmente se a trama envolve, como é o caso, um possível romance.

Com exceção do caso do jovem instrutor que tem o perfil divulgado, Alex (interpretado por Yannis Lespert), que realmente é bastante limitado, as atuações são todas adequadas, no máximo. A jovem Flora (interpretada pela belíssima Fanny Valette), abordada por Pierre, mostra momentos de doçura, inocência e não deixa a sensação de profundidade clara. No geral, é como se todos fossem planetas; astros que giram em torno de Pierre como verdadeiros satélites, sem nunca tocar este centro ou meramente se aproximar dele. A analogia presta a ilustrar o quanto a interpretação é desnivelada a favor de Pierre, mas contra os demais.

O roteiro é bastante agradável. Ele explora satisfatoriamente os personagens, em geral, e deixa a cargo da interpretação o desenvolvimento e aprofundamento — o que é o ideal, visto que o formato tradicional de cinema, com mais ou menos duas horas de corte, não é sequer conveniente para investimentos deste tipo. Em outras palavras, se o filme é pesado demais na retratação de um personagem, pode faltar tempo para os demais movimentos da narrativa. Por isso trata-se de justiça deixar isso a cargo do elenco e da direção do filme. E não há como negar que preservar a direção no embaraço das cenas é uma escolha muito privilegiada, assim como questionar a sensação de desfecho ideal ao final. São marcas de um bom texto, assim como os diálogos tão charmosos e convincentes.

A fotografia é interessante na medida em que mostra uma França simples e que, apesar disso, não tem medo de mostrar a sua faceta mais ornamentada e desfocada. Os takes da cidade passam claramente uma boa sensação de coisa mundana, dos nossos dias, realista, bem situada e de norte em claro bom gosto.

E falando em bom gosto, a trilha sonora acompanha aquele que possui o filme. Ambientado na Bossa Nova, no Lounge e em música ambiente, o som não deixa a desejar em momento algum. Especificamente a música dos créditos tem harmonia sutil e passa inteireza. A riqueza está aí, no bom ajustamento entre áudio e vídeo, que delimitam a boa história e dão sentido às futuras risadas. E não é só isso: cuidadosamente, nas cenas em que temos de notar a emoção e a mensagem, ou seja, quando as falas são realmente relevantes, o filme não tem medo de mutar a música de fundo. Havia uma provável preocupação de manter as coisas caricatas, mas muito concretas e intensas também.

Intensidade essa que se percebe em seu fim. Com a boa reviravolta na já final cena do pub, temos o sintoma final de que todas as situações foram bem montadas e tentaram dar um bom apresto para a saciedade ao término. E ela vem, e bem.

A velhice é tenra. Fidelidade a ela é muito mais do que o curioso: é o necessário. E Um Perfil Para Dois cumpre bem a missão de retratar as elucubrações idosas como divertidas, honestas e íntegras. É ver a vida de forma mais risonha, curtir as percepções de todos e mais uma vez tirar de nossas cabeças a mácula que a distância e o preconceito com os idosos acabam cumprindo com a nossa realidade.

E principalmente com a realidade deles, não?

Leave A Reply

Your email address will not be published.

%d blogueiros gostam disto: