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OPINIÃO | Suficiência define Tempestade: Planeta em Fúria

by on outubro 19, 2017
 

Deveria ser muito óbvio a todos os envolvidos em cultura que nem todo percurso precisa ser tortuoso, épico e de enorme mensagem e significado. Há alguns que naturalmente são mais simples, dizem menos, se constroem com menos, prometem menos, e aí cumprem menos — e isso não necessariamente é um problema. A simplicidade tem seu valor também, especialmente quando o comportamento dos produtos compõe uma indústria.

Ora, e desde quando a ambição é recomendável para todo tipo de arte? Será que um filme não pode ser menos sôfrego? Será que toda nota precisa ser a do Jobim ao seu piano mitológico, ou ela pode ser a do menino fã de punk rock de violão desafinado e já será louvável, até por ser autêntica?

No fim, todo exemplo que encontrarmos permanece sendo artisticamente autônomo. Em outras palavras, ter uma proposta respeitável e fundamentada numa importante mensagem a ser passada não precisa ser a tônica. Afinal, algo liga a sociedade atual ao entretenimento cinematográfico, mesmo quando ele traz uma proposta mais simplista.

E é nessa pegada que Tempestade: Planeta em Fúria estreia nos cinemas: buscando beber de fontes já conhecidas em gêneros semelhantes (Impacto Profundo, O Dia Depois de Amanhã, Armageddon) com uma mensagem geral rasa, mas também trazendo diversão em bom nível.

Dean Devlin, que ajudou a escrever Soldado Universal (1992), e que tinha deveres de roteiro e produção em Independence Day (1996) e O Patriota (2000), assume a cadeira de direção pela primeira vez na carreira. O longa trata de um momento em que a rede de satélites destinados a controlar o clima global começa a atacar a Terra, definindo uma disputa contra o relógio para descobrir a real ameaça antes que uma tempestade mundial destrua o nosso mundo.

Soa familiar, não é? O chamado Cinema-catástrofe, que insiste em demonstrar situações em que o planeta seria destruído fantasticamente, teve representantes importantes nas últimas décadas. Aqui, há ainda um elemento importante a ser descoberto na narrativa que evolui o gênero deste exemplo à uma nova faceta. Em outras palavras, é possível se observar o filme sob o ponto de vista de um outro gênero, descoberto no roteiro do filme. Deixaremos esta parte divertida para a exibição do filme, e nos atentaremos à história contada.

Os diálogos são como aqueles de qualquer filme de ação: curtos, sem grande profundidade e dotados de objetividade. É razoável pensar que uma trama veloz precisa que seus personagens sejam, muitas vezes, bem diretos ao ponto. O sentimentalismo é desnecessário.

 

Atuações Medianas

 

O filme conta com Gerard Butler (300), que recentemente se acidentou, numa atuação segura e acessível no papel do protagonista; Jim Sturgess (Quebrando a Banca) é emocionalmente fraco, Abbie Cornish vai bem mesmo em pouco foco, Ed Harris é interessante no papel de Leonard Dekkom, a bela Alexandra Maria Lara (de Rush – No Limite da Emoção e Velha Juventude) é simplista como a comandante Fassbinder, e Andy Garcia (de O Poderoso Chefão Parte III, Os Intocáveis e da trilogia Onze Homens e Um Segredo) não tem muito tempo para mostrar um presidente americano com pinta de líder; no geral, as atuações são medianas e não somam ou subtraem da diversão. Os personagens parecem frios e propositalmente limitados.

Diversão que, se não vem com o roteiro veloz ou com excelentes performances, também não vem numa fotografia que deveria ser mais marcante. O visual do filme é datado de outras produções e os efeitos especiais são razoáveis, mas há excessos de Motion Blur (também chamado de desfoque de movimento, que se caracteriza como o enevoamento da imagem em momentos de grande movimento de câmera, para maior sensação de velocidade e agressividade) e o figurino não seria capaz de fazer muito.

Já a trilha tem uma nuance que precisa ser destacada: enquanto até a metade do segundo ato ela é bastante sutil e até mesmo desanimadora, a partir daí, quando a ação realmente começa, ela é marcante. Inteligentemente, Lorne Balfe (de Os Pinguins de Madagascar e O Exterminador do Futuro 5: Gênesis, colaborador usual da lenda Hans Zimmer) cria bons intervalos entre notas mais graves, causando um efeito de oscilação que lembra o desconforto de sirenes ininterruptas — e esse desconforto vem mesmo, mas neste caso soma à sensação de caos do filme.

O filme tenta claramente responder à pergunta de como perpetuar um gênero que tem sido explorado há algum tempo, já que temas como meio ambiente e desastres de escala global estão sempre nas letras dos jornais e na boca do público. E ele consegue dizer que ainda é possível prometer coisas parecidas com algo que já vimos, entregá-las e manter a honestidade, trazendo um tempero diferente na descoberta do verdadeiro causador de todo o caos na trama. E que mal há em tentativas de se redescobrir? Há filmes que nasceram para ser Blockbusters e cumprirem com uma função muito mais simples. E se a genialidade nem sempre é alcançada, devemos nos perguntar por que motivo ela às vezes sequer é perseguida.

Tempestade: Planeta em Fúria é um bom filme e nunca vestiu a camisa de algo excessivamente elaborado e marcante. E ser consoante com a lealdade ao que prometeu não pode ser pró ou contra: nem tanto o céu, nem tanto o inferno.