OPINIÃO | Jogos Mortais: Jigsaw lembra início glorioso, e só

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Jogos Mortais é uma franquia de filmes de terror cuja primeira iteração, de mesmo nome (Saw, no original em inglês) e dirigida por James Wan, tem boa qualidade e foi um enorme sucesso de bilheteria. Com orçamento bem pequeno e fotografia bastante suja, o filme se mostrou absolutamente inventivo na fórmula e baseou a história no inesperado e na intensificação das sensações do espectador.

Apesar de um primeiro filme primoroso, no geral a franquia se perdeu na mesmice e tornou tudo aquilo que sucederia o original mera fórmula. E Formulismo, o apego às fórmulas, em arte, é como gordura: seu excesso nunca é realmente saudável, por mais que necessário em função da realidade e do contexto.

Este ano, a tentativa de resgatar o que realmente há de melhor nos jogos de John Kramer, Jogos Mortais: Jigsaw (apenas Jigsaw, no original) traz de volta o ator Tobin Bell. O mesmo de quase todos os filmes da franquia, apesar de carismático se mostra tão envelhecido e batido quanto os próprios Jogos — apesar do baixíssimo orçamento, em torno dos dez milhões de dólares. Mundialmente, até o momento, o filme já lucrou basicamente dez vezes mais. É mais um caso onde a crítica agride um filme que o público abraça — e temos experimentado muito disso ultimamente, não?

O ritmo do longa é o de filmes de ação consagrados. Com visual e enquadramentos dignos de um Missão Impossível ou Velocidade Máxima (desenterramos mesmo, porque o primeiro com Keanu Reeves e Sandra Bullock é muito bom até hoje), a aceleração em que a audiência é inserida é positiva e só ajuda a manter o foco e a criar boa expectativa. Aqui, há uma faceta policial, ou seja, toda uma investigação e foco sobre recursos de perícia, que fizeram bastante falta nos últimos filmes e trouxeram bom respiro. O roteiro é amarrado porque é característica de Jogos Mortais demonstrar ao espectador o que ele deixou de ver/entender ao final, e isso é positivo porque não deixa espaço para questionamentos profundos demais de trama. Apesar disso, há uma oscilação negativa no meio: a história desinteressa um pouco justamente na construção do final, com atuações muito simples.

A fotografia é bastante lavada, e isso cria uma sensação de artificialidade que não tem muito a ver com o que há de melhor no mundo de Jigsaw. Há muito brilho, luzes, e sangue, mas sem apelar. Mas também não surpreende o contexto de alta infraestrutura investigativa e os salões fechados onde os jogos acontecem. O interessante em Jogos Mortais é que a morte é vista como um passo dos Jogos, então é sempre um destino possível — daí a naturalidade em mostrar um defunto dilacerado de perto, e com a trilha quase em silêncio. No mais, o confinamento a lugares fechados mescla uma sensação quase claustrofóbica de horror com uma pretensão de segurança que se mostra falsa. É o mesmo dilema proposto nos eternos versos de O Rappa: as grades trazem proteção ou encerram uma prisão ao seu redor?

E falando em música, nada mais neutro do que a trilha de Jigsaw. Onde estão as trilhas originais? Por que não há o mesmo vínculo ao restante da série? A mixagem da voz de Kramer nos microfones dos aparelhos é muito alta, de modo que fica realmente difícil de acreditar que alguém gravou aquilo de forma tão audível. É desnecessário examinar esse nível de detalhe quanto a colocação dos acessórios nos cenários, já que é nisso que o mistério do filme se apoia entre diálogos e evolução de cena. Mas mesmo no som temos de aceitar tanta compressão assim no áudio? É óbvio que não. O abuso de pratos invertidos e Reverbkicks só banalizam o que escutamos, nos tiram do filme e pouco interessam na má utilização.

A passagem de bastão é clara e a intenção do longa dos Spierig Brothers é até honesta, apesar disso. Todo aquele que estiver apto a simplesmente ver Jigsaw patrocinar mais jogos, vai obter sua recompensa no final. Mas, artisticamente, foi feito bem menos do que deveria.

E podemos dizer isso até em função do passado mais longínquo da franquia; na verdade, foi feito muito menos do que é merecido pelos fãs após tantos filmes. Se é o filme que foi possível, não é o filme que o fã merecia.

Mas é uma opção, mesmo assim.

 

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