OPINIÃO | Guerra Infinita é a Marvel que não deixa dúvidas

Convenhamos: o que é mais valioso do que o merecimento?

Ao ver o logotipo vermelho, o que se espera é o melhor. O melhor trabalho, a melhor adaptação, o melhor universo, o melhor argumento… o melhor produto. Ao longo de dez anos de planejamento e execução ininterruptos, a equipe de roteiristas, diretores e construtores do chamado Universo Cinematográfico da Marvel (ou simplesmente MCU, em inglês) não descansou até criar o panorama necessário para que a imersão do fã fosse suficiente. Toda a questão reside na qualidade do trabalho, no nível de planejamento, na estratégia de conquista de fãs novos e de validação de velhos gafanhotos acostumados às infindáveis páginas da Casa das Ideias. Para dar certo, o chamado MCU precisava de todos — do mais desconfiado e do mais implicante ao mais passivo e condescendente — absolutamente interessados.

O produto é vasto e importantíssimo para a cultura pop: super-heróis, histórias interconectadas, personagens que se visitam nas tramas e uma história muito maior crescendo nas entrelinhas, com uma ameaça quase que por debaixo dos panos. O desafio sempre foi enorme, principalmente pelo fato de um dos seus principais componentes — o coração da Marvel sempre será mutante — não ser mais de domínio dos criadores, o que também foi alvo recente de iniciativa.

Após o sucesso dos filmes Capitão América: Soldado Invernal e Capitão América: Guerra Civil, os Irmãos Russo trazem ao mundo o significado dessa década heroica compilado num dos maiores petardos já vistos por essa geração de fãs. Vingadores: Guerra Infinita (“Avengers: Infinity War”, em inglês) é o filme mais esperado do ano, reúne certamente a maior quantidade de super-heróis que o mundo já viu num só filme, e mostra que é possível com a devida qualidade do trabalho e alto nível de preparação manter a arte funcionando. Para tal, basta verificarmos um fato: uma equipe tão grande de atores (e à essa altura, muitos bastante renomados) requer um nível altíssimo de gestão para seu devido funcionamento. Mesmo com toda a expertise a que uma franquia pertencente à Disney estará certamente submetida, sempre há uma grande quantidade de conflitos de interesses a serem resolvidos. Não é sequer possível imaginar o trajeto — a quantidade de dias e noites perdidas em debates e registros de dados intermináveis na construção da realidade na qual filmes, séries de TV e material On Demand — ou o destino — este filme, que completa a primeira trilogia.

Guerra Infinita é o filme que reúne os super-heróis em torno da maior ameaça já aparecida desde Homem de Ferro (2008), o Big Bang do MCU: Thanos, tido como super-vilão na Marvel, mas incrivelmente aceito pelos fãs — muitos deles inclusive o exaltam, chegando a dizer em redes sociais que em dado momento até mesmo torciam pela empreitada do “Titã Louco”. O objetivo do vilão é juntar as joias do infinito e assim ter poder para reduzir a população de todo o universo pela metade, numa objetificação da vida que é tão perversa quanto malthusiana. Thanos é um personagem muito bem construído ao longo de toda a trama que, se não deu lá muito espaço para personagens como Steve Rogers, T’Challa, Bruce Banner e Soldado Invernal, deu ao Doutor Estranho, Thor e aos Guardiões da Galáxia tempo de tela suficiente.

O roteiro do filme é bem objetivo, até pela quantidade alta de fatos que ele pretende contar. Não muito espaço para rodeios, e as falas que podem ser resolvidas em poucas frases não duram muito mais do que isso. Talvez, Guerra Infinita seja um dos poucos super hero movies em que todas as cenas têm alguma motivação clara, se não para a trama, para o público. Toda a grandiosidade da culminação do MCU é trazida à tona no longa, absolutamente digno de aplausos no quesito. Não sabemos se é possível, mas é improvável que pouco menos de três horas fossem realmente suficientes para contar todos os acontecimentos de modo a prenderem a atenção do público. Mas eles, os Russo, conseguiram.

No que diz respeito à interpretação, a impressão que temos é a de que cada característica dos filmes de super-heróis foi respeitada, o que é muito positivo. A aparição dos Guardiões da Galáxia trouxe consigo uma música cativante como âncora, o número de piadas cresce, o descomprometimento aumenta e o carisma enorme dos personagens está lá. O belicismo de Wakanda está presente quando vamos até o reinado de Pantera Negra e a inventividade de Shuri, e tudo parece se juntar perfeitamente à ambientação épico e selvagem do fictício país africano. Steve Rogers — o nosso já eterno Capitão América — aparece para salvar o dia, com toda uma atmosfera de modelo a ser seguido que, apesar de habitual, nunca pareceu tão bem encaixado… e assim, dessa forma, a coisa progride para todos os personagens e sua respectiva pegada nesse universo. Destaques para a química entre Cumberbatch/Strange e Downey Jr./Homem de Ferro, e ao brilhante Rocket Raccoon, que tira risadas de momentos mais parados — como na interação com Thor, ainda na nave — tanto quanto de agitados — em que ele barganha pelo braço de Bucky.

Josh Brolin tem o filme para si e merece menção especial: o filme Guerra Infinita é um filme que constrói Thanos e demonstra até mesmo suas características menos claras, como o sentimentalismo em torno do significado do sacrifício da filha, Gamora. Com ele, se constrói também o argumento do filme; que se não tem nada de muito novo, faz bem o trabalho com a frase de efeito “nós não trocamos vidas”, por exemplo. Os efeitos especiais são todos absolutamente soberbos. Tudo certo também com a trilha sonora, na qual tudo soa muito mais importante, impactante e terrivel dramaticamente (calma, é um elogio).

A cena final do filme é alvo de controvérsia em função do que poderia ser uma nova representação da banalização de um velho conceito largamente utilizado, ainda proveniente dos quadrinhos, de que os super-heróis não morrem em definitivo. Thanos passa a régua em metade da existência universal, inclusive nos humanos, e com isso vemos personagens icônicos como o Homem-Aranha, o Pantera Negra e Nick Fury se desfazendo na tela. Numa verificação rápida de notícias no mundo nerd, podemos descobrir que a sequência de Homem-Aranha: De Volta Ao Lar, por exemplo, está em produção. Pantera Negra foi um sucesso recente verdadeiramente absurdo, muito além das expectativas.

Será esse um adeus? É claro que não. Ao menos, não nos termos vistos. E isso pode ser criticado, como já o é, por parte da crítica especializada. Para uma atitude tão assertiva de criar um universo, dar personalidade e provar que acontecimentos são impactantes, hesitar na relação de causalidade dos atos de um grande vilão soa como um passo estranho. O que nos resta é confiar no trabalho, porque este sim, desde muito antes do primeiro filme, em 2008, permanece ininterrupto e honesto.

E é por isso que a Marvel nunca deixou dúvidas. A nova iteração dos Vingadores é um verdadeiro épico, digno de todos os fãs, de todos os riscos que corre e de um excelente resultado, artística e financeiramente. Enquanto alguns universos simplesmente inexistem e outros teimam em cometer erros que não condizem com o seu tamanho, a marca da Marvel Studios flutua em sua própria bolha, se distanciando das demais com justiça pela qualidade do esforço empregado — que sempre fora bem intenso e independente da qualidade particular de cada filme. A noção de que existe um todo é enormemente contribuidora para a concisão das batalhas, do tipo de filme esperado, do argumento ao final e da personalidade que apaixona os fãs. No fim, setar os personagens é mais relevante do que apresentar os melhores filmes; o todo reduz os problemas da parte. Eis a importância do planejamento.

E é por isso, pela grandiosidade, pela megalomania prometida e entregue, pela ampla relevância dos eventos do cinema que Guerra Infinita é o mais bem-sucedido dos filmes de super-herói, e em dimensões, quase o melhor filme de super-heróis de todos os tempos. Não há atalhos: essa é a clara mensagem passada pela equipe de Feige, amplamente administrada e aceita pelo público.

E que siga sendo, porque a Marvel, sim, levou tempo criando e reunindo suas joias por dez anos. Tudo para um dia dar este estalo de dedos.


Agradecimentos ao meu amigo Thargow pela ajuda sobre a questão Malthusiana do filme.

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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