OPINIÃO | Como Se Tornar O Pior Aluno da Escola é bom, mas agressivo

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Entre demais divagações, Aristóteles dizia que a Comédia falava das pessoas simples. Hoje em dia, podemos dizer que essa noção se encontra perfeitamente incorporada no nosso cotidiano, na medida em que o público é o primeiro grande crítico do mundo em que vivemos. Público este que em grande parte repudia o que lhe soa indiscutivelmente de péssimo gosto, e que venera o que lhe funciona realmente bem. E é nesse contexto que Danilo Gentili, como um dos principais expoentes da chamada Nova Geração do Humor, mais uma vez explora os limites do engraçado com um filme adaptado de seu próprio livro — o primeiro deles, em 2009. Um “engraçado” com uma vibe Sessão da Tarde em alguns momentos, um pouco extremo em outros, e de significado enorme em terceiros; mas, sem dúvida, engraçado.

Ele mesmo ajudou a roteirizar a adaptação do homônimo Como Se Tornar O Pior Aluno da Escola, filme dirigido por Fabrício Bittar e a ser lançado em 12 de outubro. E a expectativa seguia o atual paradigma de produções de humor, especialmente para o público dos nossos dias: um humor ácido, destemido e questionador de limites. E ainda é possível fazer mais uma reflexão relativamente fácil sobre o filme: se o objetivo dele for mesmo colocar todos em cheque e sob choque, é muito fácil inferir que respostas negativas não terão demora em se alinhar às impressões sobre o vídeo. Não que eles tenham medo: é como se essa inclusive fosse a estratégia ideal de Marketing. Essa sempre foi a expectativa.

E a constatação é que, apesar da sugestão de que este é um filme para todos e toda a família (no cartaz adolescente e no tema escolar/jovem), a realidade é que é um filme de noções atualizadas de humor. E especificamente isto significa que o longa, apesar de ter um clima bastante inspirado em Curtindo A Vida Adoidado (1986), tem a mesma pegada de comédia de internet atual, pautada inequivocamente pelo Politicamente Incorreto (expressão que inclusive dá nome ao próximo livro de Danilo, que seria lançado em 2010) e sem medo das pauladas da crítica.

A ideia por trás da história não tem nada de realmente inédita: a grande referência é, surpreendentemente, Karate Kid; isto é, uma trama na qual um azarão tenta se provar e, se antes um perdedor, tenta obter uma atitude de vencedor. O personagem de Gentili é uma espécie de Sr. Miyagi — um mestre de artes marciais e bons valores, mas na versão do longa brasileiro, da zoação e do Bullying. E é aqui que o filme tem um problema gigantesco: o personagem em questão é muito, mas muito inverossímil. Por mais satírica que seja a intenção de montar um roteiro onde um personagem tem a finalidade de ser uma mistura de rapaz descolado, case de sucesso (ainda que seja bem-sucedido por meios diferentes do esperado) e até um pretenso Badass, fica muito difícil de comprá-lo como audiência — e assim, não o levamos para frente. Em outras palavras, por mais que a ideia seja claramente esta, ela passa a ter relevância apenas ali, no domínio da aventura contada na telona. E se esvai com o fim da sessão.

A maioria das interpretações foi bastante satisfatória. Alguns, no entanto, merecem destaques positivos: Moacyr Franco é o faxineiro/zelador que é má influência aos jovens, e diverte com um humor negro e ácido; Fábio Porchat é um personagem diferente (e pararemos por aqui, porque é interessante ter o choque que se tem ao se descobrir a que ele se destina no filme); os dois protagonistas, Bruno Munhoz e Daniel Pimentel, são excelentes achados e possuem algum carisma mais marcante. Ainda assim, é importante admitir que nada é mais mágico neste longa do que assistir a Carlos Villagrán, o nosso eterno Quico, interpretar um papel no cinema brasileiro. Após vermos este filme, impressiona notar que o ator não teve uma carreira brasileira após o sucesso de várias gerações obtido por Chespirito, Chaves e Chapolin. O roteiro do filme parece bom, mas no fim insiste demais no diretor Ademar, e aí potencializa a dificuldade que o ator tem com o idioma. Mesmo a quebra da quarta parede é óbvia demais da forma como foi feita, por mais que não tenha sido falha.

A trilha sonora do filme é notavelmente barulhenta, talvez até mixada de forma a cortar muito agressivamente o que é visto com clareza e construído pelas cenas. Não que o trabalho seja ruim por isso, muito pelo contrário: até pelo fato de as escolhas serem boas, como a de “We’re not Gonna Take it” do Twisted Sister, existe uma ambientação prazerosa e, por vezes, bastante nostálgica. A trilha oitentista/clássica é muito bem-vinda e se encaixa perfeitamente com o visual e o tema.

E falando no visual: ele é bastante limpo aqui, e possui uma qualidade de edição exemplar. O veterano editor do Pânico, Bruno Nunes, é o responsável pela montagem e a consegue com êxito razoavelmente particular. Explicamos: por mais jovial e intencionalmente desarticulada que a produção soe, a verdade é que há algo de novo. Mesmo as explosões do filme de Fabrício Bittar cumprem o que prometem e, se por um lado não tem o orçamento ou tecnologia hollywoodianas, por outro satisfazem para além do esperado.

A julgar pelo trabalho de 2017, que teve alguns anos de produção até que se tivesse o produto final — que estreia no próximo dia das crianças, a realidade é que tivemos uma boa impressão do longa. Ainda que se baseie na controversa comédia atual e seja, portanto, uma enorme incerteza no que diz respeito à recepção do público a ele, Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola é um respiro e uma certeza de que há boas ideias, combinações e desafios a serem superados. E principalmente, o longa tenta responder à pergunta sobre se os novos risos são tão intensos quanto os de antigamente. E à moda das pessoas simples, como um certo filósofo grego já havia antecipado. Porém, em vez de o fazê-lo, ela evita a questão ao mesmo tempo em que se torna propositalmente reducionista: o importante é conseguir fazer rir, seja em que situação for.

E bem ou mal, ainda com um tanto mais de pimenta, o filme de Gentili consegue.

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