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OPINIÃO | Como Liga da Justiça se tornou um “Frankenstein”

by on novembro 30, 2017
 

Atenção: este artigo foi escrito originalmente por Umberto Gonzalez e Tim Molloy para o portal TheWrap. Todos os créditos vão para ambos os autores no que tange às ideias e construções de significado textual, cabendo ao Sindicato Nerd apenas a tradução e adaptação do texto, mediante a importância construtiva das informações expostas.


 

Liga da Justiça teve muitos inimigos: uma fusão corporativa iminente, uma tragédia familiar, uma batalha interna entre luz e escuridão. Mas o seu maior inimigo foi o tempo.

Poucos estão felizes com o produto finalizado, que uma fonte chamou de “um Frankenstein” feito de partes reunidas privilegiadas por executivos transitórios e diretores. Mas várias pessoas que falaram com o TheWrap disseram que a decisão de manter a data de lançamento para 17 de novembro foi um erro — um erro tão claro quanto a face de Superman.

E especificamente, a estranha e computadorizada aparência de sua face — apenas um subproduto do calendário apressado do filme. Aqui, de acordo com fontes, está a história de como Liga da Justiça ficou sem tempo.

 

O Cavaleiro das Trevas

Apesar do poder reunido de Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Ciborgue, Aquaman e Flash, Liga da Justiça teve a pior abertura da Warner Bros. para um filme inspirado na DC Comics em anos. É fácil esquecer agora, mas a decepção de Liga da Justiça começou com sucesso.

Quando Christopher Nolan completou sua celebrada trilogia Cavaleiro das Trevas, uma re-imaginação hiper-realista de Batman, a Warner esperava que ele em seguida faria um reboot para o Superman.

Só que Nolan preferiu sair, e em vez de fazê-lo, defendeu que Zack Snyder dirigisse Homem de Aço, o Reboot de Superman. Assim como os Snyders, Nolan e sua esposa, a produtora Emma Thomas, faziam filmes juntos. Eles tinham a mesma idade. Eles se davam bem.

Snyder parecia ser uma boa substituição. Ele havia dirigido as adaptações de quadrinhos Watchmen e o surpreendente hit 300; este último era inspirado no trabalho de Frank Miller, que reinventou Batman com as histórias oitentistas Ano Um e Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Snyder parece ter gozado de tanta liberdade em sua visão do universo DC quanto Nolan gozou em seus filmes da série Batman. Ele respondia a Greg Silverman, o executivo da Warner Bros. que guiou hits como O Cavaleiro das Trevas, Se Beber, Não Case! e 300. Em 2013, Silverman foi nomeado presidente da Warner Bros, reportando diretamente ao CEO da empresa, Kevin Tsujihara.

Um indivíduo com conhecimento profundo do estúdio disse que Silverman não lia observações propostas nos roteiros de Snyder. Um outro descreveu o comportamento de Silverman como “consideravelmente permissivo”.

Estas qualidades poderiam ser admiradas se os filmes de Snyder fossem universalmente amados: executivos são normalmente criticados por interferirem muito, e não por interferirem pouco. Ninguém reclamou de que Nolan tivesse muita liberdade em “O Cavaleiro das Trevas”.

Silverman não quis comentar.

 

O Homem de Aço

O tom niilista de Snyder pode ter feito sentido para Batman, um justiceiro motivado por determinação impiedosa. Mas muitos fãs acharam destoante para Superman, um personagem conhecido pelo otimismo e esperança. Quando Superman quebrou o pescoço de um inimigo no fim de Homem de Aço, muitos puristas sentiram que Snyder havia entendido errado o herói, por inteiro, acreditando que ele nunca se curvaria ao nível dos seus adversários malignos.

A sequência, Batman vs Superman: A Origem da Justiça (ou simplesmente BvS), de 2016, foi ainda mais sombria. Uma fonte a chamou de “o mais sombrio do sombrio do sombrio”. O que poderia ser mais sombrio do que Superman matando?

Que tal Superman morrendo? Pois Batman vs Superman terminou com ele no túmulo.

BvS obteve a segunda maior abertura de 2016, atrás apenas de Capitão América: Guerra Civil. Mas o burburinho era ruim: após o fim de semana de abertura de 166 milhões, o segundo final de semana caiu 69%, para 51 milhões. Logo depois, Esquadrão Suicida desapontou com outra sinistra, distópica visão para o universo DC.

“Isto só vai te mostrar o quanto a marca se desgastou desde Batman vs Superman. Este deveria ser o precursor de algo ainda mais significativo, mas nunca aconteceu por fim por conta do quão ruim foi a performance de BvS. A propaganda boca-a-boca foi tóxica”, disse Jeff Bock, Analista Sênior de Bilheteria na ERC (Exhibitor Relations).

Após a decepção de Batman vs Superman, a pessoa com conhecimento profundo da Warner disse que executivos do estúdio repetidamente foram a Silverman sugerir a remoção de Snyder de Liga da Justiça. O indivíduo disse que o presidente da DC, Jon Berg, foi enviado ao set pela maior parte do ano para fiscalizar a produção, em função de preocupações de orçamento.

A Warner Bros. não quis comentar sobre isso.

A fonte disse que Silverman foi “pegou bem pesado com Zack” quando A Origem da Justiça não impressionou a audiência. Mas ele não o demitiu: remover um diretor é uma distração enorme para qualquer filme, e seria um sério sinal de problema numa superprodução designada para apoiar um universo bem maior.

“Eles já estavam em preparação profunda para Liga da Justiça e custaria uma fortuna. Há apego a um diretor porque há muito custo em se desapegar dele”, disse a fonte. “A Warner é um estúdio que quer, quase além do necessário, projetar força”.

Perguntado quanto a quem no fim decidiu manter Snyder, a fonte disse, “Não foi decisão de Greg. Tudo isso estava acontecendo no nível de Tsujihara.”

Em dezembro, Silverman deixou o cargo de presidente da Warner Bros. Pictures e foi substituído por Toby Emmerich.

 

Luz vs Escuridão

Essa é a parte sobre a qual provavelmente os fãs de quadrinhos não se importam, mas é crucial: em outubro de 2016, a Warner Bros anunciou planos de fusão com a AT&T, e as companhias começaram a examinar recursos e riscos.

Mover a data de uma superprodução como Liga da Justiça poderia ter projetado fraqueza. Um hit deveria projetar força. E a Warner esperava um hit.

O estúdio se manifestou quanto a desejar que Liga da Justiça tivesse um tom mais leve, como aquele que o diretor Joss Whedon obteve para o Blockbuster de reunião para o universo Marvel, da rival Disney, Os Vingadores. Whedon foi trazido, com a bênção de Snyder, para ajudar a adicionar leveza e descontração ao roteiro de Liga da Justiça.

Na primavera, enquanto Snyder e a Warner estavam engajados no debate sobre a quantidade certa de luz e escuridão em Liga da Justiça, a verdadeira tragédia chegou:

A filha de Zack e Deborah Snyder se suicidou.

A princípio, disse uma fonte que a ideia do diretor era que “o trabalho seria meio que um refúgio.”

Mas depois deixou de ser. Snyder estava sob pressão ampliada porque a Warner estava abraçando “as ideias mais leves, diferentes e mais adocicadas de Joss”, disse a fonte. “Deixou de ser uma situação boa em qualquer nível.”

E aí, em maio, Snyder deixou Liga da Justiça para focar em sua família e, eventualmente, em um projeto mais pessoal: o filme “Last Photograph”, com suporte da Warner.

E Whedon assumiu o projeto… Mas o tempo estava se esgotando.

 

A Fusão e o Bigode

Logo depois de Snyder deixar Liga da Justiça, a Warner obteve mais um sinal de que seus filmes não tinham de ser sombrios: Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins, se livrou da visão violenta e monocromática do universo DC com uma protagonista divertida e inspiradora, obtendo apoio da crítica e tendo performance acima das expectativas em bilheteria.

Whedon teve de escolher entre continuar a visão de Snyder ou clarear Liga da Justiça tanto quanto pudesse.

Ou pelo menos, tanto quanto pudesse até 17 de novembro.

O calendário era intenso: o intérprete de Superman, Henry Cavill, emprestado das filmagens de Missão Impossível 6 na Paramount, não teve permissão de tirar o bigode que ele deixou crescer para este filme; então, Liga da Justiça foi forçado a removê-lo digitalmente. Fãs mais tarde reclamariam de que seu rosto parecia estranho.

Um executivo disse ao TheWrap que Tsujihara e Emmerich “queriam preservar seus bônus, que seriam pagos antes da fusão”, e eles estavam preocupados quanto a “se eles adiassem o lançamento do filme, então os bônus seriam adiados para o ano seguinte e eles poderiam nem estar mais no estúdio.”

Outra fonte entendida disse que, nos níveis mais altos da Warner, os bônus são premiados “para tomarem boas decisões.” Se atrasar um filme fosse a decisão certa, um executivo poderia ser recompensado por isso.

 

Frankenstein

A versão final de Liga da Justiça, um compromisso entre a visão de Snyder e aquela de Whedon, deixou poucas pessoas completamente satisfeitas (Phil Owen, do TheWrap, recentemente estudou o filme finalizado para descobrir quanto da visão final pertenceu a cada diretor).

“Acho que o maior erro da Warner foi não adiar o lançamento de Liga da Justiça quando Snyder teve de se afastar”, disse o executivo ao TheWrap.

Mais de cem mil fãs concordaram com a ideia, ao assinarem uma petição apelando à Warner que lançasse a versão de Snyder para o filme.

Porém, a audiência não se entusiasmou muito com o último filme puro de Snyder. Por enquanto, seu governo sobre os filmes da DC acabou.

Matt Reeves está atualmente escrevendo e seguindo na direção de The Batman; Jenkins recentemente fechou contrato para voltar na sequência de Mulher-Maravilha, que temporalmente acontecerá durante a Guerra Fria; e Shazam! está sob as rédeas do produtor de Quando as Luzes se Apagam, David F. Sandberg.

Quem pode retirar a Warner Bros. das águas sombrias?

Aquaman — ao menos o estúdio espera. O filme, dirigido por James Wan, será lançado em dezembro do ano que vem.


 

Atenção: este artigo foi escrito originalmente por Umberto Gonzalez e Tim Molloy para o portal TheWrap. Todos os créditos vão para ambos os autores no que tange às ideias e construções de significado textual, cabendo ao Sindicato Nerd apenas a tradução e adaptação do texto, mediante a importância construtiva das informações expostas.

Fonte: TheWrap