OPINIÃO | Animais Fantásticos: Crimes de Grindelwald superam a falta de cuidado na produção

Texto por Slip e Isabelle de Holanda

A melhor narrativa que construa um filme Hollywoodiano atual de alto nível financeiro e de marketing — o Blockbuster — é aquela que não tenta, principalmente, enganar o espectador, mas respeitá-lo. Robert McKee, numa publicação chamada “Story” (tida como clássica por muitos estudiosos de cinema), resume a questão quando fala que “entramos numa zona livre de clichês onde o ordinário torna-se extraordinário”, quando reflete arquétipos e estereótipos ainda em sua introdução. E a verdade é que talvez haja poucas expressões que traduzam melhor do que a de McKee o bom aproveitamento que muitas vezes um filme faz de uma trama que pode ser até simplista, mas que não força a barra ou insiste em inventar ligações inadequadas entre os fatos em primeiro plano.

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Redmayne como Newt Scamander

Entre romances, biografias, fantasia, heróis, terror e muitos outros gêneros e tipos, a transposição de obras originais para a telona tem se exaurido da falta de tato com cada vez mais frequência, denotando coisas que não se encaixam de forma orgânica e parecem enrolar no seu andamento — as chamadas Barrigas. Nesse sentido, o extenso universo criado pela escritora J. K. Rowling (ou JKR) desde seu primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, observa uma das franquias de adaptações cinematográficas mais bem-sucedidas e amadas pelo público, mesmo quando comete esse tipo de erro. O sucesso enorme do Mundo Bruxo acompanha a qualidade do material apresentado nesta nova iteração da franquia, e é aí que talvez Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald se mostrem como uma realidade interessante, ainda que com um pouco menos de talento no ritmo da história.

No primeiro longa (Animais Fantásticos e Onde Habitam), vemos a apresentação do mundo dos bruxos na década de 1920, pouco tempo após a Primeira Guerra Mundial do mundo dos trouxas. Lá, temos uma referência até mesmo a um claro reflexo dos contos de Salem (quando todos já ouvimos falar do julgamento das bruxas daquele lugar). Personagens nos são apresentados com cuidado, como o travado Newt Scamander (Eddie Redmayne, o Stephen Hawking de A Teoria de Tudo), o irreverente Jacob (Dan Fogler, que chegou a fazer The Walking Dead e Hannibal), Tina Goldstein (Katherine Waterston, a Daniels de Alien: Covenant), o misterioso Creedence Barebone (Ezra Miller, o Flash de Liga da Justiça), e ainda o vilão Gellert Grindelwald (Johnny Depp, que dispensa apresentações) e Queenie Goldstein (a bela Alison Sudol traz de volta seu magnetismo como uma personagem legilimente).

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Leta Lestrange

Neste, vemos o aparecimento de novos personagens, como o amado Alvo Dumbledore (bem interpretado por Jude Law), Leta Lestrange (que conta com Zoë Kravitz na atuação e se mostrou boa escolha), Theseus Scamander (Callum Turner, de Rainha e País) e a parceira de você-sabe-quem Nagini (Claudia Kim, a Dra. Cho de Vingadores: A Era de Ultron); só que com muito menos esmero e uma falta de profundidade até latente.

Os personagens do primeiro longa, em sua maioria, são desenvolvidos ao longo da narrativa; em Crimes de Grindelwald, não há desenvolvimento proposto para vários papéis e principalmente uma aparente falta de uniformidade nesse critério. Em suma, o resultado é que enquanto alguns personagens novos ganham um foco bastante razoável, outros ficam esquecidos. Apesar de ser irrazoável, no geral um dos pontos fortes do filme é o roteiro bem construído, ainda que perca a direção em vários momentos como supracitado.

Alvo Dumbledore: à esquerda, Jude Law em Crimes de Grindelwald; à direita, na saga Harry Potter

Apesar de o enredo poder ser um pouco mais enfadonho em relação ao anterior, vemos um filme de personalidade e que não se sustenta somente nos efeitos visuais — que aliás, por melhores que sejam, também nunca chegam a parecer totalmente finalizados. A textura de pelos, pele e membros dos ditos fantásticos animais — mesmo de seres aceitos pelo público como o Pelúcio, por exemplo — é por vezes mal inserida no restante da imagem, de modo que fica impossível não perceber o quanto a artificialidade invade a tela. E não é esse tipo de acabamento que esperamos de um filme do Mundo Bruxo, certo? Apesar de isso poder ser dito, algumas batalhas se tornam majestosas graças ao CG e à excepcional mixagem sonora, e nesse caso há clara contribuição do IMAX e do 3D (que recomendamos, inclusive).

Além disso, o visual do filme é muito fiel ao já apresentado pelos anteriores de Harry Potter (especialmente nos dois últimos filmes, Harry Potter e as Relíquias da Morte partes 1 e 2), com aqueles elementos que definem o mundo da magia todos ali, colocados visivelmente para o público (o alerta de fofura é real). E com certeza é essa a grande sacada do filme: ele usa e abusa do magnetismo e do carisma da franquia, do cenário medieval/vintage, das músicas beirando o clássico mesmo com percussões reverberadas atuando o tempo inteiro, das varinhas, dos feitiços, pois tudo isso é um sucesso e o público permanece órfão desse lindo universo. A propósito, o retorno a Hogwarts tem inclusive um tema que você conhece muito bem em cordas. Impossível não se arrepiar.

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A fotografia é mais rasteira e externa do que nunca

Um ponto negativo é o fato de que em alguns momentos que poderiam ser mais impactantes e dramáticos, a música de fundo é pouco audível, e aí um instante potencialmente épico pode acabar se perdendo. De novo: não é mal feito, longe disso, mas falta cuidado.

Porém, não nos enganemos. Essa é, na modesta opinião de quem vos escreve, uma trama ainda melhor do que a do primeiro Animais Fantásticos. Mesmo com seus momentos de ligações prejudicadas, o filme te prende para te levar a um final escabroso e impactante. Os telespectadores provavelmente sairão da sala querendo saber o que acontecerá a partir dali, porque há uma continuidade sombria desenvolvida e entremeada nas linhas do filme que culmina num final no mínimo espantoso. O Plot Twist é tenso e, se é uma boa ideia, ainda veremos depois.

O filme, no todo, é bom. Era esperado um excelente filme, mas tivemos um espetáculo técnico, visual, uma história competente em manter a tensão e atuações talentosas quando utilizadas. O que falta é bom senso em decisões selecionadas. Toda conexão com o amado mundo visto em Harry Potter está ali, e com certeza os fãs não só sairão satisfeitos, como sairão querendo mais. E embora objetivamente pudesse ser muito mais bem feito, Crimes de Grindelwald é satisfatório e honesto, simplesmente porque “poder ser melhor” é um mantra que pode ser repetido em quase toda produção atual. Vai muito do bom senso de cada um e de uma expectativa plausível e realista, não é mesmo?

Mais um ponto para JKR!

P.S.: Até o fechamento deste review, os autores ainda aguardavam sua carta para Hogwarts.

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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