OPINIÃO | Agradável clichê é verdadeiramente O Rei do Show

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O maior espetáculo da Terra!

 

A atividade circense possui várias funções: da diversão infantil à irreverência social, com benefícios que vão desde preservação cultural à geração de empregos. Mesmo seres excluídos podem forçar a sua própria segunda chance na sociedade através das tendas e arenas, por todo o mundo. E nenhum de nós até aqui tem dúvidas do significado cultural que o circo possui.

A história do circo dá espaço até mesmo para personalidades especialistas no desenvolvimento de espetáculos — os chamados Showmen, que muitas vezes lutam para manter a chama acesa, ou por outras são veículos de verdadeiras missões de vida. Um destes homens era Phineas Taylor Barnum (ou simplesmente P. T. Barnum), um empresário americano que tinha o objetivo de ser o responsável por algo realmente inovador.

Buscando essas premissas, O Rei do Show (The Greatest Showman, no original) tem a missão de ilustrar para a audiência o quanto Barnum lutou e qual o conflito da história que permeia não só seu espetáculo, mas também (e até consequentemente) o trecho provavelmente mais turbulento de sua vida — e o filme não deixa dúvidas em atestar o quanto várias vidas foram afetadas, seja positiva ou negativamente.

O musical e drama autobiográfico de época tem o eterno Wolverine Hugh Jackman como o protagonista, que como Jean Valjean já havia dado boa noção da sua qualidade em gênero semelhante quando fez Os Miseráveis, em 2012. Pois, da mesma forma, o papel de Barnum lhe cai bem no novo longa e o ator não decepciona em momento nenhum (apesar de, nos momentos de canto, ter a voz substituída pela de Ziv Zaifman, o que também é uma escolha de produção e não é necessariamente um defeito).

Zac Efron, o mesmo de High School Musical, volta a usar a voz por aqui e, aliado à personagem de Zendaya, traz um dos números musicais mais memoráveis dos últimos anos. Michelle Williams é a esposa de Barnum, Charity, que é um pouco subaproveitada na melhor e mais conflituosa parte da trama. A interpretação em geral é boa, mas nunca genial. Talvez, a atuação da Mulher Barbada (Keala Settle) e, pelas próprias limitações do ator, a do crítico e fundador do Herald James Gordon Bennett (Paul Sparks) sejam boas exceções a serem consideradas devidamente.

A fotografia de época é linda, não soa exagerada e tem muitos takes realmente excepcionais. Com o uso extenso e destemido de cores vivas, a direção visual busca aproximar o espectador da alegria e da inocência circense. E no fim, consegue facilmente, já que neste referido contexto essa é uma atitude de bom gosto e verossimilhança. É uma ambientação privilegiada. E os figurinos são facilmente alguns dos melhores do ano. Não estranhe se a estatueta chegar até aqui, pois o motivo é sólido.

Talvez seja um pouco demais reclamar quanto às numerosas vezes em que o drama se desenvolve e uma música corta o avanço da história a ser contada. Se um filme pretende ser musical, decerto essa seja a melhor e mais óbvia ideia a ser seguida… mas o ritmo não ficou orgânico o suficiente. O roteiro é simplista (quase ingênuo, mesmo) e não ajuda, mas as músicas em alguns momentos se saturam um pouco. Há momentos clichês demais, mas eles acabam conferindo um ar fantástico ao todo e não comprometem em excesso.

Afinal, talvez o clichê seja algo indesejado na maioria das vezes. Mas o que nós realmente queremos como audiência crítica quando um filme é honesto e promete apenas o que pretende cumprir? O circo precisa ter espaço, mesmo nas telas, e trata de uma cultura que definitivamente não pode morrer.

Nas últimas semanas, é comum vermos influenciados e influenciadores tomando posições rasas que, apesar de honestas, levam pouco do contexto e das intenções em conta. É vista como normal a atitude de tentarmos ver num filme em exibição o longa que está em nossa cabeça, e não o que foi apresentado. E isso abre um teimoso e malquisto precedente: reclamamos da visão mostrada como quem não precisa respeitar a visão atrelada a um artista — que foi pago para fazer o que fez e merece, sim, ser avaliado prontamente, mas somente quanto ao que apresentou, e não quanto ao que supostamente deveria ter apresentado em uma, outra ou até infinitas visões.

Em outras palavras, ninguém — senão um especialista, que flerte diretamente com a arte — pede que se troque a guitarra de alguém na execução de uma música, não é? Ou você gosta da música como ela é, ou não gosta e sabe o motivo… mas ainda assim, respeita a visão do artista e da produção e, apesar do detalhamento do que te deixar descontente, entende a música e imagina a arte forjada daquela forma para causar uma certa sensação — mesmo que seja de desconforto. Se você não gosta, não gosta (um direito inalienável que todos temos), mas é daquele jeito e não mudará. E o conveniente esquecimento de que cinema é arte só causa falta de critério, já que não pressupõe conhecimento algum.

E aí precisamos nos perguntar: a falta de critério também não é uma coisa igualmente barata e batida?

 

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