OPINIÃO | A Noiva é previsível e sem ambição

0

A matéria exposta neste conteúdo teve contribuição de Isabelle de Holanda.


Há motivações diversas que podem levar um bom produtor de obras audiovisuais a ter boas ideias. Um filme, enquanto obra de arte, pode ser feito para construir e desconstruir, aprofundar e discutir, posicionar ou refletir; mas ele sempre tem uma mensagem a ser passada — mesmo quando tal mensagem é contestável.

Mas ainda assim, talvez encontremos um dos piores casos na proposta que é repetitiva por definição. Observando dessa forma, é fácil perceber o quanto é importante que cada filme tenha uma assinatura; por mais compreensível que seja o posicionamento de um cineasta ao definir que um vídeo seguirá tendências estabelecidas pelo contexto do mercado ou da cultura, o trabalho é favorecido quando ele traz algo de novo à opinião geral, seja ela pública ou especializada.

E é neste sentido que encontramos problemas com o longa A Noiva (Невеста, no original russo), de Svyatoslav Podgayevskiy, que aparenta referenciar fontes batidas demais e é um filme correto apenas superficialmente. A bela Victoria Agalakova interpreta Nastya, uma jovem mulher que viaja com seu futuro marido para a casa da família dele. Lá, ela se dá conta de que a visita pode ter sido um erro: cercada de pessoas de costume esquisito, ela passa a ter visões terríveis à medida em que a família a prepara para um ritual que não corresponde aos clássicos atos sobre casamentos felizes e satisfatórios para os envolvidos.

O problema é que há muito a ser construído e, por fim, pouco a ser dito num longa que se assemelha bastante a títulos como Os Outros (com Nicole Kidman, de 2001), por exemplo. É como se a produção atual buscasse a faceta de terror daquele supracitado, porém sem a sofisticação sonora e sem a carga dramática intensa do antigo. O filme se apressa a se colocar na locação selvagem, escurecida e isolada do frio russo do interior, buscando chegar rapidamente no melhor contexto de perturbação da audiência para se forçar a não sair dele, mas a história em momento algum justifica tal pressa. A música de Jesper Hansen, por exemplo, não chega a comprometer, mas por vezes é suave demais.

Não há grande objetividade; mais fácil emanar a tristeza, a depressão, o frio e a velharia de lugares longínquos e esquecidos. O clima é tão fúnebre que se torna pretensioso.

O espectador com certeza desconfiará, e com razão, com o quanto é veloz a tentativa da direção e do roteiro de introduzirem o quanto antes a ameaça, e nem ao menos uma imersão possível nos personagens, em quais suas motivações, medos e compromissos. Terminamos o filme sem saber se as pessoas vitimadas são merecedoras do seu destino triste, e com atuações completamente comuns. O figurino é objeto de destaque: como o filme tem alguns momentos de Flashback, a roupagem dos personagens em tempos mais antigos é de peças delicadas, elegantes e envelhecidos — portanto, bastante própria à ambientação tétrica que o título propõe. A adesão clara ao Medium Shot, isto é, o enquadramento médio que posiciona a câmera a alguns metros do objeto enquanto mostra alguns itens dos arredores, se justifica pelo fato de os personagens frequentemente ouvirem sons estranhos e pela necessidade de os mesmos se virarem para saber do que se trata. Mas é preciso reconhecer que há uma certa sofisticação na interseção entre o Fog da locação e o véu, mesmo sendo algo explorado o tempo inteiro.

O gênero horror é um gênero bastante surrado, banalizado em função da alta procura do gênero pelo público jovem e adepto do gore. Cinematográfica e artisticamente falando, é sempre melhor se um filme tentar trazer algo realmente novo e pôr à mesa; It: A Coisa é um exemplo de filme que tentou fazer algo diferente e que foi amplamente aceito (ainda que no espectro dos Remakes). No caso, o inferno de Pennywise trouxe bons ângulos de câmera, explorou a pegada jovial de Stephen King, e investiu claramente numa química muito grande entre os protagonistas. E aí, devemos nos perguntar: o que A Noiva trouxe de realmente novo? É verdade que não chega a ser ilegítima a tentativa de fazer um longa que tente se reutilizar de temas já explorados exaustivamente, como o terror numa casa mal-assombrada, a suposta excentricidade de certas localidades europeias. Mas é cansativo, até porque a premissa do ocultismo não se sustenta.

Em verdade, falta refinamento à mensagem e uma maior aproximação da audiência a ela. Mas são duas horas dignas para todo fã de cinema que se propuser a curtir algo mais lúgubre e sepulcral na pegada, e sinistro em si mesmo, sem se preocupar tanto com a expectativa que o filme passa.

 

Leave A Reply

Your email address will not be published.

%d blogueiros gostam disto: