OPINIÃO | Liga da Justiça que tardou, mas não falhou

Esta crítica teve a colaboração de Isabelle de Holanda.


Um filme que precisa dar certo, por si mesmo, por um projeto financeiro e pelos fãs. Alvo de inúmeros boatos, na maioria das vezes infundados. Conspirações, possibilidades e despreparo — Inclusive dos envolvidos. Um universo compartilhado! Daqueles que trocam o sinal de exclamação por interrogação como quem troca de roupa. É óbvio que quanto mais interligado a outros acontecimentos um filme for, maior a informação potencial. E se conhecimento é poder, informação é riqueza, certo? Mas não basta observar a vizinhança bilionária, é necessário ameaçar copiá-la… e falhar, quando o único significado que isso teria é que a própria identidade deve se destacar. Seja por incapacidade ou por limitação imposta pela vida, como a de um trágico suicídio, Lobo da Estepe, Darkseid e os Novos Deuses precisam responder a críticos especializados.

Ciborgue, Aquaman e Flash. Batman! Mulher-Maravilha!

Superman!

Muitas dúvidas pairavam em torno do filme. A saída de seu diretor inequívoco, Zack Snyder, por questões pessoais antes da produção e edição serem dadas como encerradas; a contratação de Joss Whedon para não só fazer algumas mudanças pontuais no roteiro, mas também para a refilmagem de cenas e modificações na edição, num orçamento alto — o que reduziria o tempo do filme e o adequaria num passo ainda mais longínquo da linha de pensamento da iteração anterior, A Origem da Justiça.

Liga da Justiça (2017) tem como prévia os acontecimentos de Batman vs Superman (que, por sua vez, usou Homem de Aço como antecedente de seu desenvolvimento). Lidando com o momento complicado diretamente, vemos a morte de Superman e, consequentemente, como a humanidade passa a lidar com o fato de não ter mais seu protetor superpoderoso. Inclusive a permanência nas referências religiosas usadas por Zack Snyder é, ainda, algo que interessa.

No longa, a ideia de filmes que contem uma história maior, por mais que seja algo em que a Warner venha trabalhando há algum tempo, não é mais importante do que mostrar o que os fãs por tanto tempo esperaram: o início, a formação da grande equipe de super-heróis da história na tela do cinema.

É importante destacar que, por mais que seja uma reunião de equipe, e que alguns personagens já tenham tido seus respectivos filmes solo e/ou também tenham participado de outras produções da DC, cada membro é trabalhado de forma concisa, porém sem muitas delongas — afinal, a tendência é que eles passem a ser o foco em particular, logo em seguida. Por exemplo, em 2018 teremos o filme Aquaman, com uma historia própria do Protetor dos Oceanos, além de Flashpoint, que será protagonizado pelo homem mais rápido do mundo.

Falando em abordagem de personagens:

  • Ben Affleck interpreta um Batman mais maduro, mas ao mesmo tempo mais culpado também. É bonito ver como a essência de Batman é apresentada de forma clara.
  • Provavelmente não há personagem mais decidida e amável no universo DC do que Diana Prince, também conhecida como Mulher-Maravilha. Gal Gadot adiciona muito mais profundidade à personagem já tão bem construída em seu próprio filme solo.
  • Ezra Miller é o alívio cômico, como fica claro desde os trailers. A atuação é absolutamente impressionante, de modo que em vários momentos não sabemos se Ezra é Barry, ou se ele se interpreta nas situações descritas do longa.
  • A faceta Bad-ass de Aquaman, a personalidade forte e a atitude no filme são claríssimos, embora não totalmente aprofundados — de propósito, em função do filme do ano que vem.
  • Ciborgue é interpretado por Ray Fisher, e é um personagem de muito potencial a ser desenvolvido nos outros arcos da DC, por conta de suas características próprias.
  • E o Superman? O Superman é…!

Deste modo, ao apresentar de forma correta as personalidades, conflitos e poderes de cada membro da tradicional equipe de super-heróis, a união do grupo se torna mais rica e curiosa, visto que, em situações cotidianas, seria algo improvável.

Além da equipe principal, o vilão e assecla de Darkseid, Lobo da Estepe (Steppenwolf no original), não chega a ser o maior vilão de filmes deste tipo até o momento, mas cumpre muito bem o papel que lhe cabe: não é somente medo que ele causa, mas a insistência, o narcisismo, a sede de poder e vingança. Ele é, de fato, uma ameaça e deixará isso bem claro. Mas não vai muito além disso, para a nossa tristeza. No fim, Steppenwolf não é muito mais do que um vilão comum em CG, sem grandes motivações expostas e apenas uma pequena justificativa apresentada. A atuação geral é muito boa nos personagens mais explorados no chamado DCEU até aqui, o que nos leva a crer que de fato sentimos a ausência de um bom background; em outras palavras, os filmes solo fazem falta antes deste, que é a reunião.

A fotografia do filme é muito boa. Tem o toque de Zack Snyder, sem dúvida: as cenas depressivas de um mundo sem esperança, os inúmeros monumentos enlutados, o logotipo de Superman no fundo negro… Todo esse visual é explorado. A Gotham noturna é o que sempre foi, escura, gélida e gótica, mas de alguma forma existe um elemento vintage nas cenas de Gordon e da exploração do Bat-sinal. Apesar da mão pesada de Snyder, há modificações sutis em relação aos seus anteriores títulos (Homem de Aço e Batman vs Superman), se aproximando bem mais do recente filme da Mulher-Maravilha não só nessa parte, mas no próprio tom do longa como um todo — com arcos dramáticos riquíssimos e bem trabalhados, mas sempre buscando ser mais leve, e nem por isso menos consistente.

E falando em arcos, o roteiro de Liga da Justiça não tem plots mirabolantes e busca acertar pela simplicidade, por encerrar-se em si mesmo — muito provavelmente influência das críticas aos seus antecessores. Mas ainda assim, a marca de Snyder está lá. É bonito ver como Whedon e Snyder se redescobriram num diferencial cognoscível e compuseram, com Chris Terrio, uma trama honesta e de ritmo razoavelmente acelerado.

E sim, você leu isso mesmo: acelerado. Afinal, o que se espera do critério quando a crítica especializada outrora triturou BvS é que esse filme não se preocupe tanto explicar as coisas a fundo, especialmente em períodos muito longos de duração. E nesse sentido, as críticas com certeza foram ouvidas.

A trilha sonora não aparece com novidades. Danny Elfman cumpre bem seu papel, mas não inova — não que isso seja um ponto negativo ou que atrapalhe o desenvolvimento da trama ou dos personagens, mas também não a enriquece. Menção honrosa à música da Mulher-Maravilha composta por Hans Zimmer e à música do Batman composta pelo próprio Elfman para o filme homônimo de Tim Burton em 1989. Infelizmente, não foi possível ouvir o tema clássico de John Williams para o Superman, mesmo que o compositor tenha dito que o mesmo estaria presente no filme. No fim, a mix não ajudou.

Destaque na diversão

Assim, Liga se torna a reunião de equipes que os fãs sempre esperaram, e atinge também o público que pouco conhece sobre o time. E isso além de divertir o espectador e, com certeza, o emocionar. Com toda a certeza, os antecessores são excelentes longas, com suas falhas, claro, mas ainda assim, foram precedentes preciosos para que, no momento certo, a Era dos Heróis retornasse. E o momento, claramente, é esse.

Os problemas estão aí, expostos e claros. Talvez esse não seja o maior filme de super-heróis da história, mas diante de todo o contexto confuso apresentado anteriormente, por que não acreditar no que, por exemplo, as cenas pós-créditos (que você obviamente, por querer se divertir com o filme, só verá no cinema, certo?) ditam para o futuro da franquia da DC Films? Qual foi o grande defeito encontrado até aqui, seja em Liga da Justiça ou em qualquer outro longa de Snyder, que não nos permite curti-lo enquanto obra de arte?

E o que pode ser mais básico, mais basilar e mais fundamental do que a diversão quando o assunto é filme? As pessoas inclusive confundem a diversão com a irreverência, e entendem que um filme ser mais divertido pressupõe haver mais piadas ou situações surreais que arrancam risos da plateia. Um filme divertido entretém a audiência por todo o tempo. E é exatamente o que se consegue quando elementos da narrativa, ainda que apressados, trazem uma abordagem original num universo que, guardem nossas palavras, tende a saturar devido ao formulismo barato e mera crença em altos números de bilheteria.

E que bela mensagem nos foi passada! A mensagem que, alheias a todo o ruído externo, as pessoas continuam trabalhando para fazer algo que seja divertido e digno de nós. A dignidade é a grande luta da Liga da Justiça, que vence mais uma batalha.

E quando é que a justiça, mesmo aquela que tarda, falhou?

 

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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