LIGA DA JUSTIÇA | Analisamos faixa a faixa toda a trilha sonora do filme!

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Liga da Justiça, o mais novo longa da DC Films situado no Universo Estendido da DC para os cinemas (o chamado DCEU), não teve a recepção que nós gostaríamos. O filme tem cenas polêmicas, teve problemas na produção, mas está aí e é o resultado de anos de trabalho duro dos envolvidos.

Um dos componentes mais marcantes dos filmes da DC até aqui tem sido a trilha sonora de cada um deles, que obviamente ajuda os longas a ter sua personalidade delineada e termina de nos envolver em tudo o que vemos nas telas.

A trilha de Liga foi lançada digitalmente em 10 de novembro, pela WaterTower Music (o selo da Warner, usado pros lançamentos originais, a antiga New Line Records). Todo o álbum foi composto por Danny Elfman, exceto quando apontado. As músicas Come Together e Icky Thump, que fazem parte da trilha mas não foram compostas por Elfman, não constam da avaliação porque o objetivo é pensar no que foi composto exclusivamente e por inteiro para o filme. As letras envolvidas na trilha sonora são todas de muito bom gosto e fazem algum sentido para o contexto, no geral.

Confira!

 

Everybody Knows

por Sigrid

“Todo mundo sabe”

Everybody Knows é uma linda música de Leonard Cohen, composta para o álbum de 1988, I’m Your Man, já regravada outras vezes por vários artistas — e aqui, pela cantora norueguesa Sigrid.
Talvez a música seja um tanto melancólica demais para uma abertura de filme de super-heróis, mas fica muito difícil destacar a trilha do contexto do filme. Ao final de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, como já sabemos, Superman está morto. E todo mundo sabe disso. Nessa sequência, são mostrados vários Takes com o símbolo de Superman num fundo escuro. O luto é algo muito claro nesse trecho do filme e talvez não tivesse muito como ser diferente. Não há descoberta.

Todo mundo sabe.

 

The Justice League Theme — Logos

“O Tema de Liga da Justiça”

Algo maior. Forte. Poderoso. Moderno, uma linda progressão grave e… acabou.
Especialmente no contexto das trilhas sonoras, não há o que não ser entendido quando uma faixa é curta. Mas em se tratando de um tema principal, você normalmente quer valorizar a mensagem.
Este é um exemplo, tanto no início quanto no fim. E esse aqui também, a partir dos 2 min.

 

Hero’s Theme

“Tema do Herói”

Eis o primeiro tema do filme liberado para a audiência. E aqui temos um claro acerto de Elfman. O tema heroico não precisa ser óbvio, não precisa ser meramente épico. Precisa emocionar. As sequências primeira-terça menor são imponentes, e de repente caímos no exato mesmo acorde do tema clássico de Liga da Justiça (aquele mesmo, da animação que tantos de nós amamos). Como diz Galvão Bueno, é pra arrebentar com o coração do torcedor — ou melhor, do fã, no caso.

 

Batman on the Roof

“Batman no Telhado”

Uma coisa que acontece neste tema e aparentemente, de alguma forma, em toda a trilha sonora do filme, é a falta de ligação entre as partes. Faltam bridges neste tema, transições que liguem as passagens importantes a outras passagens importantes. De alguma forma, temos rompimentos demais e isso é mais ligado a cenas de pura ação e máxima intensidade. Ademais, o tema é soturno e de vez em quando muda a pegada. Lembra o Batman e sua furtividade? Lembra. Mas pode lembrar qualquer coisa também.

 

Enter Cyborg

“Surge Ciborgue”

Você se lembra do momento em que vemos Ciborgue pela primeira vez no filme? Ele está tendo uma conversa com o seu pai, Silas Stone. O tema dele é excessivamente melancólico, e daí começa a fazer sentido o não entendimento das pessoas sobre o personagem, que é um problema de roteiro sim, mas não só; trata-se da condução geral que o filme dá ao personagem, que aparentemente não tem um tema que o represente da melhor maneira. Victor é uma incógnita, alguém que vivenciou um momento difícil e está se redescobrindo; alguém que se descobre mais do que sofre.

 

Wonder Woman Rescue

“Resgate de Mulher-Maravilha”

Aqui sim existe um senso de narração. O mistério está presente e persiste até ser cortado pelo tema da Mulher-Maravilha — aqui, não há uma guitarra tocando o seu já clássico riff, mas uma orquestra. E isso equivale à cena em todos os sentidos. Talvez este seja, em toda a trilha, o tema mais adequadamente adaptado.

 

Hippolyta’s Arrow

“Flecha de Hipólita”

Aqui fica muito clara a influência de Hans Zimmer na compressão inicial da faixa. Lembra bastante o trabalho dele em O Código Da Vinci, em faixas como L’esprit des Gabriel. O tema é muito bem arranjado e funciona bem (quando a música é boa, dificilmente causa uma sensação ruim).

 

The Story of Steppenwolf

“A História de Steppenwolf”

O único problema dessa faixa é que o épico está presente numa proporção muito maior que o sentimento. A faixa serve para contar a história de uma batalha antiga, mas assim como no filme o roteiro não colabora, o tema não passa a mensagem mais adequada. E como pode uma faixa chamada “A história de Steppenwolf” terminar de forma tão tranquila?

 

The Amazon Mother Box

“A Caixa Materna das Amazonas”

Esse trecho do filme é visceral e várias partes dele sequer precisavam de uma trilha marcante. Mas Elfman novamente faz um ótimo trabalho. Toda a cena de Steppenwolf enfrentando as Amazonas pela caixa materna é coberta aqui e a faixa se caracteriza por cortes em frases soltas. Exatamente como dito antes, isso é o caracteriza cenas de grande choque, enfrentamento e ação.

 

Cyborg Meets Diana

“Ciborgue encontra Diana”

Quando há muitas notas repetidas, a tendência é a de que seja intencional a tentativa de valorizar a conversa entre personagens. Então, a persistência na nota se lê como um chamado de atenção ao telespectador sobre o que é falado; é uma forma de convidar o telespectador a ouvir a mensagem junto com você. E este é o caso, então basta respeitar o autor. As notas não flutuam muito e permanecem, em geral, num médio grave.

 

Aquaman in Atlantis

“Aquaman na Atlântida”

É uma faixa muito intensa e quebrada, tal qual a impressão humana de uma batalha dentro da água. Aqui, aparentemente houve uma diferença na interpretação para a qual achamos a melhor: os envolvidos na cena são todos provenientes das águas com exceção de Steppenwolf. A confusão na trilha não se justifica.

 

Then There Were Three

“E Então Haviam Três”

Aqui, temos a cena em que o Comissário Gordon chama por Batman e ele vem acompanhado de Flash e da Mulher-Maravilha. Podemos perceber sutilmente o tema de Batman (1989), de trilha também composta por Elfman. O tema é focado demais em Gotham, e isso se justifica pelo fato de a cena ser naquele lugar e essa ser a adesão definitiva do filme à famosa ambientação do Batman (Batman/Gotham/Gordon/telhado/trilha épica/Batsinal). E é isso. A faixa termina bem assim, com o volume meramente diminuindo mesmo, o que desvaloriza um pouco o que é construído.

 

The Tunnel Fight

“A Luta no Túnel”

É uma faixa composta por trechos de outras faixas. Não há quase nada de novo aqui.
Não soa bem a despreocupação com construir.

 

The World Needs Superman

“O Mundo Precisa de Superman”

Mais uma vez, uma faixa de conversa. Até pela dramaticidade do papo entre Bruce e Alfred, não dá para entender a escolha de Elfman por cordas marcantes, em vez de algo mais morno e talvez até um piano bem sutil, com poucas notas, apenas pincelando.

 

Spark of the Flash

“Faísca do Flash”

Por que um tema inspirado no homem mais veloz do mundo e alívio cômico do filme parece uma trilha de filme do David Fincher?

 

Friends and Foes

“Amigos e Inimigos”

O tema envolve o retorno do Superman e, logo no início, há detalhes da trilha original que Elfman disse que usaria no filme (o mesmo de John Williams). Mais uma vez, a música não tem nada de extraordinariamente novo.

 

Justice League United

“Liga da Justiça Unida”

Para um tema curto, utilizado pra mostrar a reunião da Liga da Justiça, não falta a referência a algo de conhecimento global, como um dos temas da Liga da TV?
Faltou feeling.

 

Home

“Lar”

Com a mesma avaliação de Hero’s Theme, trata-se de um tema muito bem executado e com uma mensagem própria. Elfman acertou na harpa e nos acordes dedilhados. Esse é o feeling que faltou aqui em cima. Essa é a forma certa de abordar o retorno da esperança para casa.

 

Bruce and Diana

“Bruce e Diana”

Trilha para conversa, mas com cordas em função do perigo e da doçura entre Diana e Bruce; talvez essa faixa pudesse ser um pouco mais baixa em dinâmica.

 

The Final Battle

“A Batalha Final”

O crescendo é marcante até a trilha do Batman — aqui sim, objetivamente e nada sutil, temos a trilha de 89. Só que ela é quase que colada no meio das outras frases. Não há boas transições, de novo. Um pouco depois, ouvimos uma das frases da trilha sonora de Superman já citada, de John Williams — aqui, não a principal, mas a que acompanha a faixa na maior parte. Por ser uma coleção de cortes, deixa a desejar.

 

A New Hope

“Uma Nova Esperança”

Essa faixa dita o fim do filme. E aqui, ela é tão clichê quanto o final de Liga da Justiça.

 

 

Por fim, qual o resumo da ópera?

No fim, a qualidade da trilha de Danny Elfman é muito discutível. Ele inequivocamente acerta em alguns pontos, mas erra em outros tantos que fica difícil não perceber que a trilha ajuda a desconectar a audiência das situações e dos personagens.

Elfman é um grande compositor e músico brilhante. Ele obteve um Grammy pelo já citado Batman de Tim Burton, um Emmy por Desperate Housewives e quatro indicações ao Oscar, por exemplo. Trata-se de um profissional do maior refinamento, um verdadeiro especialista que precisa ser respeitado. Porém, o trabalho em Liga da Justiça sem dúvida deixou a desejar, o que na verdade só demonstra que ninguém está livre de maus trabalhos.

Nem mesmo os mais talentosos e reconhecidos.

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