OPINIÃO: Lendas não mantém alto nível, mas acerta

Para examinar a verdade é necessário, pelo menos uma vez na vida, pôr todas as coisas em dúvida, tanto quanto se puder. Porque fomos crianças antes de sermos homens (…);
Há vários juízos precipitados que nos impedem agora de alcançar o conhecimento da verdade (…);
Só conseguimos libertar-nos deles se tomarmos a iniciativa de duvidar, pelo menos uma vez na vida, de todas as coisas em que encontrarmos a mínima suspeita de incerteza.

 

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Seguem acima três considerações respeitosamente reproduzidas de Princípio da Filosofia, de René Descartes. Por obras como essa, o cientista francês é considerado o “fundador da filosofia moderna”, também por se utilizar de forma genial de noções que buscavam o pensamento essencialmente livre – para ele, a ciência do questionamento deveria ser algo em aberto e, portanto, estar livre de toda crença e influência.

Dito isso, que tal observarmos mais de perto o contexto da DC após meados da década de 80? A nossa amada editora pôs a Crise nos quadrinhos, e o jogo virou: reuniu seus maiores nomes na História e agora reformularia a principal equipe de heróis numa saga. E nela, muito deve ser questionado. Cartesiano ou não, tal nível de ceticismo também tinha razão de ser nas páginas da editora e a DC exemplificou bem isso quando a crença de que “o super-herói é necessário, bom e útil” é discutida.

 

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Sendo o primeiro Crossover no pós-Crise, Lendas (“Legends”, no original) trouxe ao público uma história evoluída, ainda que por vezes ingênua, especialmente na eloquente chamada “vocativa” dos heróis. A coleção de seis volumes, cuja estreia datou de novembro de 1986 – e lá se foram quase trinta anos – e final em maio de 1987, marcou um novo approach para a ilustração de alguns personagens. Era chegada a hora, por exemplo, de ver na prática o uniforme do Flash ser vestido por mais um rapaz marcante na história da DC. Mas aqui, ao contrário da História, que praticamente elencou os heróis informativamente, Lendas o fez objetivamente. Numa narrativa cativante e que conta ao mundo o que aconteceria quando estes seres especiais fossem questionados pela sociedade, bem como as consequências de uma visão honesta, mundana e humana sobre esse enfrentamento, a história é competente. Hoje em dia, isso resultaria em mais um filmaço do Zack Snyder.

A pegada realista é temperada também com cenas de partir o coração. Ver Billy Batson – o Capitão Marvel – olhar para si mesmo com desprezo após cometer um certo erro é pesado, e traz sinceridade ao olhar sugerido pelos autores John Ostrander e Len Wein. São coisas que sutilmente colocam o leitor no exato mesmo ambiente dos personagens, e que mais do que mostrar as perguntas e dúvidas da sociedade quanto aos seres, também põem o leitor em constante questionamento quanto ao que torna alguém uma lenda. A arte de John Byrne e Karl Kesel está no ponto exato, e só exagera quando deve.

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E falando em Ostrander na DC Comics, é importante destacar que temos aqui o seu debut. Foi exatamente aqui que ele reformulou o grupo de supervilões escalados para missões tão secretas quanto perigosas: o Esquadrão Suicida tem as suas primeiras páginas na sua nova e mais famosa formação aqui (a anterior datava do final da década de 50). Em Lendas, você vai ver Rick Flag comandando a Força Tarefa X sob a batuta de Amanda Waller, e essa exata configuração se dá pela primeira vez. É aqui inclusive que a personagem interpretada por Viola Davis nos cinemas surge nos quadrinhos.

Aliás, se você viu o recente filme com Margot Robbie, Will Smith e Jared Leto, deve ter notado o nome do autor em um edifício de Midway City – não é por acaso, claro que não.

Excelentes questões levantadas

O Esquadrão deixou claro que, num mundo de heróis, vilões também se fazem presentes. E afinal de contas, o que faz de alguém um herói? O que torna um ser uma lenda? A característica verdadeiramente especial no herói é ter poderes? Ser herói é ser, de fato, melhor do que alguém? O que é, realmente, o herói? De onde vem a motivação para esse serviço ininterrupto pela humanidade, pelos inocentes e pela justiça?

E nessa hipótese, o que garante a necessidade do herói? O que é um mundo sem super-heróis? Quem diz o que um herói deve ou não deve fazer? Qual é o limite do heroísmo? O que os torna corretos, ou necessariamente justos?

Quem vigia os vigilantes?

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Talvez ninguém tenha uma resposta exata para questões tão profundas e abrangentes quanto estas, mas se elas existem, com certeza passam por unanimidades malignas como Darkseid, o fanático e aterrador líder de Apokolips. É dele todo o antecedente original de que se origina a trama de Lendas: num momento de rivalidade com o Vingador Fantasma, ele decide tornar a humanidade cética dos nossos queridos heróis. É aí que o “ver para crer” entra em cena, e que a introdução deste artigo referente ao método e ao pensamento cartesiano faz sentido.

Ler a publicação é flertar com a verdade sobre a conduta do ser dito “superior” sobre os “inferiores”, sobre os papéis dos envolvidos nesta equação e sobre a obrigação moral dos mesmos. Ver o quanto Darkseid pode ser meticuloso é uma resposta digna e clara para todas as perguntas acima.

Nesta história, em algum momento – melhor não te dar spoilers a essa altura, concordemos – você também será apresentado à nova configuração da Liga da Justiça. E para fins de estímulo à sua leitura, basta informar que a adesão imediata por parte dos heróis após a recriação da Liga não é bem como um fã comum imaginaria.

A controvérsia, sobre o olhar da sociedade a propósito do papel dos super-heróis no mundo imediatamente pós-Crise, é saudável quando promovida por Lendas, e a publicação prova que todo herói tem razão de ser. O bom nível de texto nas entrelinhas é importante, argumenta na medida certa e organiza as ideias para alimentar as histórias vindouras. Só por isso, a leitura já é interessante e vale a pena.

Nota 7.5, já que a discussão surpreende.

*Obrigado mais uma vez, Shô!

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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