GUIA LJA | HQs – Versão 4: Fase Internacional (incluindo a “Cômica”)

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Depois da terrível Fase Detroit, a Liga da Justiça continuou em declínio conceitual e qualitativo na DC Comics, mesmo com um período de sucesso comercial e popularidade, em sua quarta versão, que abordaremos neste capítulo do nosso Guia da Liga da Justiça.


Versão 4 (de Legends#6 / JLA#262 de 1987 até JLA#113 de 1996 – Fase Internacional [incluindo a “Cômica”]):

A mudança de tom da DC advinda com Crise nas Infinitas Terras deixou os títulos mensais da editora sérios e, na visão de muitos, sisudos e muito “carregados”. Quase não se via histórias leves e divertidas, e humor era algo praticamente abolido nas HQs de então.

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O sucesso comercial que manchou a reputação do Batman e da DC

Como já explicado nas outras partes deste artigo, essa nova diretriz foi uma reposta editorial necessária adotada pela direção da DC por conta da popularidade da Marvel (que abordava seus personagens de forma muito mais madura e “sombria” que a Distinta Concorrência) e para acabar com a imagem infantilóide que se agarrou à editora com a terrível série televisiva do Batman de Adam West (que, a despeito de tudo isso e do assassinato conceitual cometido contra o Homem Morcego, foi um sucesso comercial sem precedentes e é até hoje cultuada por muitos fãs).

A mesma linha editorial foi a responsável por encomendar na época uma das maiores obras-primas da História dos quadrinhos em todos os tempos, a mini-série Batman – O Cavaleiro das Trevas (Batman – The Dark Knight Returns – 1986) de Frank Miller que, junto com Watchmen de Alan Moore e Sandman de Neil Gaiman mudou para sempre o conceito das HQs, alçando-as aos patamares atuais.

Assim, não deixou de ser uma certa surpresa que a alta cúpula da DC Comics tenha aprovado a idéia de transformar a Liga da Justiça em uma revista cômica, ao invés de simplesmente manter o ar sério que a equipe merece e trocar o time criativo em busca de melhorias nas histórias. Afinal, estamos falando da Liga da Justiça e não de um Quarteto Fantástico, uma Justiça Jovem ou a Família Marvel (Shazam, Mary Marvel, etc.)… estamos falando da maior equipe de heróis dos quadrinhos, a mais poderosa e importante.

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JL#1 marca o início da fase cômica

Infelizmente, porém, o caminho escolhido foi esse e então surgiu em 1987 a Liga da Justiça (sem o “América” no nome), desenhada por Kevin Maguire e roteirizada por Keith Giffen e J. M. DeMatteis, como conseqüência da mini-série Lendas, que por sua vez ocorreu como conseqüência de Crise nas Infinitas Terras.

As fileiras da agora LJ contavam com personagens secundários oriundos das antigas Terras alternativas do extinto Multiverso: Sr. Milagre, Sr. Destino, Dra. Luz, Bezouro Azul, Capitão Marvel e o Lanterna Verde Guy Gardner, que haviam sido reunidos por Batman, Canário Negro e Caçador de Marte (este, o único remanescente da formação da Fase Detroit, a versão anterior da equipe). Uma novidade foi o personagem Maxwell Lord, empresário, porta-voz da equipe e elo de ligação da Liga com os governos e a ONU, onde ele obteve uma carta de autorização para ações internacionais (como se precisassem disso…).

A equipe surgiu na última edição de Lendas (com ramificações da história em JLA #262), e foi introduzida oficialmente na revista Justice League #1, edição em que os novos integrantes se reúnem no novo Q.G. da equipe e Guy Gardner acha que será ovacionado como líder, quando vê que Batman é quem será escolhido para tal cargo. Os dois discutem e o Morcego nocauteia o Lanterna falastrão – que todos amavam odiar – com apenas um golpe.

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principal grupo de heróis das HQs ridicularizado constantemente

As histórias, mesmo quando abordavam temas menos pastelões, eram recheadas de humor explícito, e os roteiristas adoravam retratar os heróis em situações estapafúrdias, como quando a equipe se envolve em uma contenda que causa danos em um país europeu e se deixa ser presa pela polícia local para não piorar sua imagem perante a opinião pública, chegando a ir para uma cela, até que descobrem que os mesmos poderiam invocar sua “imunidade diplomática” para não serem encarcerados, ou então quando um integrante tem seu carro roubado em frente à embaixada da Liga, com uma arma cósmica no porta-malas.

Aliás, a maioria das situações retratadas nessa fase mostrava os integrantes discutindo entre si (ou zoando uns aos outros) durante as missões, tendo apenas o Batman e o Caçador de Marte como mais sóbrios no time. Era realmente uma comédia e não um tom leve com humor de pano de fundo.

A verdade é que a jogada do editor Andy Helfer conseguiu reverter inicialmente o problema das vendagens baixas da metade dos anos 80 contratando Giffens, DeMatteis e Maguire, e a Liga cômica tornou-se um produto de sucesso comercial, ainda que, com o tom pastelão e integrantes de segunda linha da DC, a superequipe tenha continuado a ser uma revista “B” dentro da editora, algo que vinha ocorrendo desde o fim da Fase Satélite.

Nessa época a equipe passou a ser oficialmente a Liga da Justiça Internacional com a inclusão de mais heróis, como Metamorfo, Homem-Animal, Mulher-Maravilha, Flash (Wally West), Gladiador Dourado, Fogo (uma heroína brasileira) e sua amiga Gelo, Poderosa e Homem-Elástico. Com tantos integrantes, autorização da ONU e atuação irrestrita, os governos dos EUA e da União Soviética forçaram a entrada de seus homens de confiança Capitão Átomo e Soviete Supremo, respectivamente, mediante resolução do Conselho de Segurança, para servirem de ponte política na equipe em tempos de Guerra Fria.

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Liga Internacional é dividida em duas: Liga América e Liga Europa

Mais tarde a equipe (então muito numerosa) dividiu-se em duas – porém sob um comando integrado – e tivemos o ressurgimento da Liga da Justiça América onde ficaram alguns dos personagens, e os outros integrantes (como a nova membro Raposa Escarlate) formaram a Liga da Justiça Europa, para os heróis poderem atuar nos dois principais centros de meta-ocorrências do mundo.

Aliás, essa fase, como auge do esculacho com a equipe que devia ser o diamante editorial da DC, teve na revista inaugural da Liga Europa uma outra estréia, a da Liga da Justiça Antártida. Assumidamente besteirol em doses cavalares, a equipe continha os personagens mais estúpidos da DC, e – obviamente – não resistiu por muito tempo.

A própria Fase Cômica – que até durou bastante tempo, de 1987 a 1996 – começou a dar ali mostras de fadiga. As piadas estavam perdendo a graça e as formações cheias de personagens secundários e terciários perdiam fôlego em uma época de ouro da concorrência, com os X-Men de Chris Claremont e os Novos Titãs de Marv Wolfman em seu auge.

Para tentar reverter a nova queda de vendas que se delineava, a DC deu uma, digamos, revitalizada na equipe. O tom pastelão diminuiu (a redação da editora já recebia muitas reclamações quanto a isso, já que o frescor da novidade havia acabado e a ficha estava caindo quanto ao rumo dado à Liga) e surgiu a Força-Tarefa Liga da Justiça, que nada mais era que a retomada da equipe unificada que antes era a Liga da Justiça Internacional, porém agora capitaneada por Caçador de Marte e bem menos cômica, com formações que dependiam das missões a serem cumpridas ou dos vilões a serem enfrentados.

Apesar de ter agradado o público – tendo fãs até os dias de hoje – aquela Liga piadista e escrachada de Giffen e DeMatteis não tinha a aura de importância que o grupo deve ter. Desde o fim da Fase Satélite e continuando na Fase Detroit que a equipe era apenas um grupo de heróis reunidos, mas que não fazia jus à alcunha, à fama e ao mito que o nome Liga da Justiça deveria impor. Já faziam 12 anos que o mais emblemático grupo de heróis dos quadrinhos era maltratado e diminuído editorialmente, mesmo tendo obtido momentos de altas vendagens e popularização.

Não que as histórias fossem ruins, como as da Fase Detroit… na verdade eram muito boas, dentro de seu contexto. Não eram aventuras grandiosas da Liga, mas sim histórias “divertidas”, em contextos diferentes do usual. Os roteiros eram bons e dificilmente haviam histórias abaixo da média. O problema era que se tratava da Liga da Justiça, e não de um grupo qualquer de heróis. Se Giffens e DeMatteis estivessem roteirizando histórias dos Novos Titãs, por exemplo, a visão sobre essa fase seria outra, mas transformar o maior grupo de heróis dos quadrinhos em uma comédia pastelão não é muito fácil de digerir… pelo menos para quem tem pela Liga um sentimento de admiração e respeito por tudo o que ela representa.

É o mesmo caso da tal série televisiva cômica do Batman… ela é muito legal sim, mas fazer aquilo com o Batman, o Homem-Morcego, o “Cavaleiro das Trevas”, o personagem mais “cool” dos quadrinhos, chega a ser um sacrilégio!

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Força-Tarefa Liga da Justiça: Era Image no auge

Não podemos nos esquecer que contribuiu para o declínio o visual “maromba” dos heróis da época, influência direta da “Era Image” onde todo personagem era um exemplar vivo de uma impossibilidade anatômica de musculatura hiperdesenvolvida e hiperdefinida.

A situação chegou ao fundo do poço então, com as vendagens novamente às mínguas e a reputação da Liga destroçada pelas fases Detroit e Cômica. Nas palavras de alguns roteiristas que trabalhariam na equipe futuramente, a Liga era, na época, “um bando de palhaços” pouco poderosos e que mal trabalhavam em equipe (justo na época que seu inimigo mais poderoso, Apocalypse, chegou à Terra).

Mas isso mudaria em breve, quanto a DC tomasse juízo e reformulasse a Liga recolocando ela no patamar de onde jamais deveria ter saído, o topo da importância e qualidade dos quadrinhos de linha de heróis, onde a LJA novamente fosse a encarnação dos conceitos de heroísmo, justiça, bravura e abnegação, com seus maiores ícones, na Fase Torre de Vigilância.

Dan Jurgens, que havia assumido os roteiros em 1992 com a missão de resgatar o nome e a imagem da equipe, começou essa transição do tragicômico para o grandioso (que resultaria na tão comemorada Fase Torre de Vigilância) justamente com a nova Liga da Justiça da América, erguida dos escombros do massacre perpetrado pelo Apocalypse, o monstro implacável que havia chegado à Terra e causado destruição em massa até ser detido pelo Superman (que também morreu na batalha).

Essa nova Liga manteve alguns integrantes da formação anterior, apesar das baixas causadas pelo enfrentamento ao Apocalypse. Em Justice League of América #71 a Fase Cômica foi oficialmente “encerrada” com a Mulher Maravilha assumindo a liderança e contando com Máxima, Guy Gardner, Bloodwynd, Caçador de Marte, Ray, Condor Negro e Agente Liberdade. Logo depois, Bezouro Azul e Gladiador Dourado, recuperados dos ferimentos causados por Apocalypse, retornam à equipe.

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Apocalypse destroça a Liga e abre caminho pro fim da fase cômica

Nos anos seguintes, até 1996, a Liga passaria por mais algumas mudanças em sua formação, principalmente após o reboot da época, a saga Zero Hora, tendo a participação de Gavião Negro, Nuklon, Flash, Metamorfo, Manto Negro, Dama de Gelo, Raposa Escarlate, Fogo, Demônio Azul e Poderosa, e chegando a ter dissidentes liderados pelo Capitão Átomo (eles não concordavam com a subserviência à ONU) que formaram uma nova equipe, a Justiça Extrema, que pouco durou.

Sem um grande marco final, essa Liga teve seus três títulos (Liga da Justiça da América, Força-Tarefa Liga da Justiça e Justiça Extrema) cancelados em 1996, quando então a versão 4 da equipe foi encerrada, com sua reputação tendo sido parcialmente resgatada e as terríveis fases Detroit e Cômica fazendo parte apenas da história.

E um grande e maravilhoso futuro estava por vir! Aguardem a próxima parte do nosso Guia da Liga da Justiça, quando enfim chegaremos à melhor fase da equipe, aquela que emoldurou no imaginário coletivo do mundo todo a importância e a grandiosidade da Liga da Justiça, a Fase Torre de Vigilância!

Fontes:
Comic Book DB
DC Comics
DC Indexes
DC Wikia
DC Wikia BR
Super Heroes DB
Universo HQ

2 Comments
  1. Jonah Hex says

    Novamente, muito bom. Tinha lido o Guia #5 primeiro e depois fui conferir retroativamente (li, após o 5º, do #1-4)… Excelente linha de artigos 😉

    1. Ralph Solera says

      Vlw Jonah!!!

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