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GUIA LJA | Televisão – Superamigos

by on Maio 12, 2017
 

Já vimos no capítulo anterior do nosso Guia Completo da Liga da Justiça como foram as primeiras incursões da LJA na televisão, nos anos 40, 50, 60 e início dos ano 70. Apesar de boas, as animações anteriores não faziam ainda jus à fama da equipe. Mas tudo isso mudaria com Superamigos.


Super Friends (de 1973 a 1985):

Depois das experiências feitas com o Batman em episódios do Scooby-Doo, os estúdios Hanna-Barbera começaram a produzir uma série de toda a Liga da Justiça para a TV, já que após as séries da Fleischer e da Filmation, não havia nada da DC Comics sendo animado em nenhum canal norte-americano.

Como na época a administração da editora era uma “bagunça” (para sermos modestos), visto que não havia um departamento central que cuidasse das adaptações para outras mídias, licenciamentos e até mesmo planejamento editorial, não houve um cuidado em exigir do H-B uma fidedignidade muito grande às HQs, ou mesmo uma individualização de personagens e situações que obrigassem o estúdio a seguir determinada linha.

Assim, com lacunas contratuais favoráveis e uma aproximação bastante interessante entre as cúpulas das duas empresas, ficou fácil para o estúdio dar seus toques pessoais à série, o que incluiu criação de personagens exclusivos para a TV e, como todos sabem, a “mudança” no nome do seriado para Superamigos (Super Friends), por motivos relacionados à guerra do Vietnã e eventuais relações com o “América” do nome original da equipe nos quadrinhos. Também foi discutido com cuidado o tom que a série teria, para se adequar aos padrões de transmissão da época, muito atento a eventuais cenas de “violência” (que hoje em dia seriam consideradas verdadeiras “bobeiras”).

Em 1973, portanto, estreou no canal ABC, com direção de Charles Nichols, a primeira temporada de Superamigos, chamada oficialmente de Super Friends, que tinha em sua formação os ícones Superman, Batman e Mulher Maravilha, acompanhados do Robin, do Aquaman (provavelmente por conta da popularidade do personagem na TV desde The Superman/Aquaman Hour of Adventure do fim dos anos 60) e também de um trio de personagens criados pelo H-B especialmente para a série, composto dos adolescentes Wendy e Marvin e seu Supercão (Wonder Dog).

Na primeira temporada (que foi estendida até 1974), os Superamigos já tinham como base de operações a suntuosa e eternamente famosa Sala de Justiça (Hall of Justice), onde eram notificados por seu contato militar em Washington, o Coronel Wilcox, acerca de ocorrências em todo o mundo, fossem elas simples crimes, catástrofes naturais, ataques alienígenas ou alguma aparição de um supervilão genérico (ao invés dos inimigos clássicos da Liga nas HQs, que até então não davam as caras).

A série, que até então tinha essa única temporada (em episódios de uma hora), não foi um fenômeno de audiência. Os bordões expositivos dos heróis (“Isso é um trabalho para o Super-Homem!”), a narração em off em alguns momentos (“Enquanto isso, na Sala de Justiça…”), a dinâmica leve e extremamente objetiva dos enredos e os roteiros rasos fizeram de Superamigos algo não muito atraente na época (algo reforçado pela necessidade de atender as normas de transmissão dos anos 60, principalmente aquelas voltadas para os jovens).

“Enquanto isso, na Sala de Justiça…”

O resultado decepcionante fez a série ser “cancelada” ao fim de 1974. Porém, boas audiências com reprises dos Superamigos nos anos de 1975 e 1976 e sucessos de séries como a da Mulher Maravilha (com Linda Carter) e do Homem de Seis Milhões de Dólares, ambas da ABC, levaram o canal a encomendar uma segunda temporada de Super Friends do Hanna-Barbera, que foi entregue em 1977, com episódios de uma hora agora divididos em quatro partes independentes.

Na ocasião o estúdio decidiu dar um passo adiante e subir o tom da série, justamente para tentar subir a audiência. Agora chamado de The All-New Super Friends Hour, os roteiros ficaram um pouco menos juvenis, saiu o trio de aprendizes inspirados no seriado do Scooby-Doo e entraram os Super-Gêmeos (Zan, Jayna e “seu fiel macaco” Gleek). Outros personagens da Liga da Justiça nos quadrinhos, como Flash, Lanterna Verde, Mulher Gavião, Eléktron e Arqueiro Verde, por exemplo, começaram a aparecer em alguns episódios.

Nessa segunda temporada o estúdio também criou mais personagens exclusivos da série, buscando evidentemente identificação maior com etnias mais diversas (e, consequentemente, audiência maior). Assim, Chefe Apache, Vulcão Negro e Samurai passaram a integrar as fileiras dos Superamigos. Até uma personagem feminina chama Rima (que era um tipo de “mulher das selvas” das HQs da DC na época) chegou a aparecer, assim como Abin Sur (o Lanterna Verde) e o Superboy. A nova linha adotada deu resultados e finalmente a série se tornou um sucesso de audiência.

Em 1978 veio a terceira temporada, que recebeu o nome de Challenge of Super Friends, e os Superamigos evoluíram ainda mais e ganharam o tom que, no fim das contas, acabou se perpetuando no imaginário coletivo a respeito da série, cujo fato marcante foi a introdução da Legião do Mal – uma superequipe de vilões formada pelos antagonistas dos quadrinhos, como Lex Luthor, Brainiac, Mulher-Leopardo, Gorila Grodd, Sinestro, Homem-Brinquedo, Bizarro, Charada, Espantalho, Arraia Negra, etc. Pela primeira vez na História, a TV mostrava um embate entre equipes de super-heróis e super-vilões!

Nessa temporada, os episódios de uma hora agora eram divididos em duas partes. Na primeira, os Superamigos (que às vezes chamavam a si mesmos de “Liga da Justiça da América”…) enfrentavam sempre alguma situação causada pela Legião do Mal (que tinha como base de operações uma construção com o formato quase igual ao capacete de Darth Vader, no meio de um pântano). Na segunda parte do episódio, o formato era basicamente o mesmo das temporadas anteriores, com dois ou três heróis atendendo algum chamado do Coronel Wilcox.

Vale ainda lembrar que no ano seguinte o Hanna-Barbera fez uma parceria com a rede NBC e produziu dois episódios live-action dos Superamigos baseados na fase Challenge of Super Friends (a terceira temporada da série). Assumidamente camp – como a série de TV do Batman dos anos 60 – essa “paródia” só teve de bom mesmo a participação de Adam West e Burt Ward, que reviveram seus áureos tempos de Batman e Robin na telinha.

A “série” de dois episódios foi chamada de Legends of Superheroes e teve diversos problemas com os licenciamentos de personagens e nomes. Assim, não puderam ser usados nomes como Liga da Justiça, Legião do Mal, Superamigos, etc. Personagens como o Superman e a Mulher Maravilha não estavam disponíveis (o kryptoniano já estava com o marcante filme em produção e a amazona fazia sucesso na série da ABC) e tiveram que ser substituídos por Capitão Marvel (Shazam), Canário Negro e Caçadora, por exemplo.

A quarta temporada da série, em 1979, trouxe um – digamos – retrocesso. O formato dos episódios continuou com as duas partes em meia hora, mas o tom retroagiu ao ar mais juvenil da temporada inicial. Com o nome de The World’s Gratest Superfriends, a Legião do Mal pouco aparecia, ainda que alguns vilões peso-pesados dos quadrinhos dessem as caras em alguns episódios, e a formação dos Superamigos voltou a ser basicamente Superman, Batman, Mulher Maravilha, Robin, Aquaman e os Super-Gêmeos – e Gleek, claro.

No ano de 1980 a série chegou à sua quinta temporada com o nome de Super Friends (Hour Shorts) e estranhos episódios com segmentos de míseros sete minutos. O tom voltou a ser ainda mais despreocupado, os roteiros mais profundos da fase Challenge haviam ficado definitivamente para trás e deram lugar às aventuras fechadas, e apesar da boa audiência, notadamente se tratou de um retrocesso.

Essa temporada (que se estendeu até 1982) marcou a introdução do personagem-estereótipo El Dorado – uma mescla de vários clichês latino-americanos em uma só caracterização – e o uso de mais conceitos das HQs, como a Zona Fantasma e a Ilha Paraíso. Muitos episódios exploravam lendas e folclores dos EUA (e de alguns outros países), em uma aparente tentativa de explorar aventuras mais intimistas do cenário cultural estadunidense.

Em 1983 a ABC reprisou episódios dos anos anteriores em montagens diferentes com o nome de The Best of Super Friends (para muitos, a sexta temporada da série) e o H-B produziu episódios que acabaram não sendo transmitidos (por conta de um famoso caso de cessão de direitos para outras emissoras) no que ficou conhecido como The Lost Super Friends Episodes, o que equivaleria, portanto, à sétima temporada (e só exibida anos depois nos EUA).

Em 1984, já com o caso da cessão de direitos resolvido, estreou a oitava temporada dos Superamigos, chamada de Super Friends: The Legendary Super Powers Show e que se notabilizou pela explosão de popularidade dos “bonecos” (action figures) dos personagens, fabricada pela Kenner, concorrente da Mattel (de G. I. Joe, Transformers, He-Man, etc.).

Foi nessa fase que os roteiros voltaram a evoluir e se fixaram em um alto patamar. Aquaman e Super-Gêmeos perderam espaço para personagens mais complexos dos quadrinhos, como o Nuclear, e – finalmente – o poderoso Darkseid foi introduzido, além da Gangue de Espadas. Outro fator que marcou essa época (mas apenas nos EUA) foi a dublagem, com Adam West – o Batman da série cômica de TV – dublando o Homem-Morcego.

Em 1985 a ABC apresentou a nona temporada da série, que se chamava The Super Powers Team: Galactic Guardians, (a única sem Super Friends no nome) e era uma evolução dos conceitos da temporada anterior. Evolução inclusive no visual, com um traço diferente dos outros anos, já mais moderno, além de uma edição mais ágil.

Nessa temporada os personagens criados apenas para a TV sumiram quase todos, restando apenas o Samurai, que no entando apareceu em apenas um episódio. A formação passou a contar com Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Nuclear, Gavião Negro, Robin, Aquaman, e Ciborgue. Entre os vilões, o destaque foi a primeira aparição do Pinguim na série.

Apesar dos conceitos modernos, o tom sério e profundo e o visual mais contemporâneo, essa última temporada não teve o sucesso esperado e foi cancelada após parcos oito episódios. O último, inclusive, teve como tema a morte do Superman (algo que acabou acontecendo nos quadrinhos nos anos 90). Na ocasião, o Azulão havia sido vítima de kryptonita, mas “voltou” à vida antes do fim da trama.

Assim, após 109 episódios divididos em nove temporadas, os Superamigos encontraram seu ocaso nos estúdios Hanna-Barbera. A série, no entanto, acabou indo para as mãos da Turner, no início dos anos 90, quando o H-B foi vendido, e com isso passou a ser reprisada no canal de animações da companhia, o Cartoon Network.

Responsável por popularizar os heróis da DC a níveis até então jamais alcançados, Superamigos marcou uma geração inteira e tornou-se cult. A série foi tão fortemente marcante que muitos artistas dos anos 2000 – que conheceram e se apaixonaram pelos super-heróis ao assistirem Super Friends – homenagearam, quando puderam, aquela versão televisiva da Liga da Justiça.

Alex Ross homenageia Superamigos em seu Reino do Amanhã

Nos quadrinhos, por exemplo, Alex Ross – fã assumido de Superamigos – fez o Gulag da mítica Reino do Amanhã (Kingdom Come) inspirado na base da Legião do Mal, bem como sediou sua versão das Nações Unidas em um prédio idêntico à Sala de Justiça da série. Na revista mensal da LJA, na Fase Final (após a destruição da icônica Torre de Vigilância), a Liga passa a se sediar em uma base em Washington que também é idêntica à Sala de Justiça, levando inclusive seu nome. Os Super-Gêmeos (assim como o Chefe Apache, o El Dorado e o Vulcão Negro) tiveram versões modernas aparecendo na série Liga da Justiça sem Limites (Justice League Unlimited) já nos anos 2000.

No próprio Cartoon Network ficaram muito famosas as vinhetas cômicas que satirizavam o Aquaman, além de algumas outras que parodiavam episódios dos Superamigos, inclusive um onde as Meninas Superpoderosas salvam a Mulher Maravilha e o Aquaman da Legião do Mal. Impagável.

Nos próximos capítulos deste Guia, falaremos da melhor e definitiva encarnação da LJA na televisão, a fase de Justice League e Justice League Unlimited, baseadas na Fase Torre de Vigilância dos quadrinhos e responsáveis por elevar a popularidade dos super-heróis a níveis nunca antes alcançados, o que, por consequência, propiciou depois adaptações live-action para a TV e o cinema. Aguardem!


Fontes:
Big Cartoon Database
DC Comics

DC Indexes
DC Wikia
DC Wikia BR
Superfriends Wikia

Super Heroes DB