OPINIÃO | “Os Caçadores”: Beleza e Tensão

Hoje, o mundo vai pesar sobre os ombros do Arqueiro Verde. Oliver Queen (sim, o bilionário vigilante) teve sua realidade completamente mudada no instante em que Mike Grell passou por seu caminho e escreveu um conto espetacular, de extremo bom gosto, sobre o herói de Star City – ainda que, aqui, ele esteja em Seattle acompanhando a sua mulher Dinah, a Canário Negro. Aliás… mais do que um conto sobre um herói, trata-se de uma história sobre um homem.

Um homem que envelhece.


 

1 – O CONTEXTO
CLIQUE PARA AUMENTAR.

Poucas vezes um autor vai acertar tanto quanto Mike Grell acertou em Arqueiro Verde: Os Caçadores (Green Arrow: The Longbow Hunters, no original), de 1987. Esse título de três partes retrata Oliver Queen como um herói presente no mundo. Seria hipocrisia reclamar do surrealismo de personagens que voam, soltam rajadas das mãos ou se transformam no inimaginável; mas ainda assim é possível argumentar que muitas vezes falta um bom punhado da realidade nessas histórias, da nossa realidade, da realidade das ruas, da maldade que nós enxergamos e das soluções humanas, dos quadros humanos das ruas, da simplicidade, da solidão e do vazio habitual em tantos lugares. O único momento em que histórias de super-heróis se superam de verdade é quando elas tentam se aproximar mais de nós ao serem mais reais.

E é isso o que Grell faz em Os Caçadores. Vemos um casal formado por Oliver Queen e Dinah Lance – o Arqueiro Verde e a Canário Negro – e eles vivem a nossa realidade. Mudaram de cidade, estão na meia idade, e pensam no futuro. Envolvem-se com causas maiores do que si mesmos, mas conseguem curtir um figurino que os lembre dos velhos tempos. E é por isso que essa curta saga é tão importante: ela veio delinear o significado que o Arqueiro Verde deveria ter. Não, esse já não seria mais um mero playboy com complexo de Robin Hood, mas uma demonstração de que heróis também são valorosos por serem humanos – sobretudo estes, que não são alienígenas ou cujos poderes vem de outro lugar.

Julia Lacquement efetua ainda um excelente trabalho nas cores. Por vezes, a história parece mais adulta por conta do nível da arte. Alguns takes, vazios e sem alto nível de detalhes, podem soar como um retratado falado de uma história bastante séria e urbana.

 

 

2 – OS ACONTECIMENTOS

ATENÇÃO! O texto a seguir contém spoilers. Recomendamos fortemente a leitura particular da obra, para que você tire suas próprias conclusões.

Seguem então os principais acontecimentos da saga, dispostos em ordem cronológica.

  • Em seu aniversário de 43 anos, Oliver Queen se muda de Star City para Seattle, em Washington – o lar de sua namorada, Dinah Lance. Ele muda sua vestimenta e abandona o uso de suas flechas especiais, sua marca registrada, e as troca por um equipamento tradicional. Enquanto o Arqueiro Verde tenta rastrear um Serial Killer chamado Estripador de Seattle, que mata prostitutas naquela área, Canário Negro tenta se infiltrar no tráfico de drogas local, que pode ter ligações com Kyle Magnor (um mercador e magnata local, portanto muito bem-sucedido). Oliver e Dinah têm uma conversa sobre filhos e família: Dinah explica que essa não é uma prioridade para ela, que apesar de verdadeiramente amar Oliver, teme ver novos membros da família sofrerem pela vida perigosa de ambos, possíveis pai e mãe. A conversa mexe mais com Ollie do que deveria.

 

  • Oliver rastreia o assassino até o subsolo de Seattle, descobrindo que o homicida é um ex-Rato de Túnel da guerra do Vietnã (um Rato de Túnel era um soldado especialista em missões de busca e destruição no subsolo). O Estripador ataca Oliver e foge para aparentemente matar de novo; no entanto, uma arqueira misteriosa, possuindo uma tatuagem de dragão detalhada no braço, atira no Estripador e num motorista que estava de passagem no mesmo momento, antes de sumir.

  • A Arqueira se revela ser Shado, a filha de um agente da Yakuza encarcerado durante a Segunda Guerra Mundial, na qual soldados americanos – incluindo Magnor – forçaram-no a revelar um importante esconderijo de ouro maciço da organização japonesa. Humilhado, o agente se matou para compensar a desonra. Quando Shado chegou à vida adulta, ela buscaria matar todos os culpados pela desonra de seu pai. Descobrimos então que o motorista que passava por perto e foi assassinado pela bela mulher era um desses soldados, que teriam roubado ouro para construir um grande império financeiro. Oliver rastreou Shado, que o derrota facilmente (segundo um dos pensamentos de Oliver, “ela o jogou no chão feito roupa suja, mesmo tendo metade do seu tamanho”).

 

  • Em casa, Oliver escuta notícias de que o traficante que Dinah esteve investigando foi encontrado morto e mutilado mais cedo, naquele mesmo dia. Em pânico, Oliver se apressa até o depósito nas docas – onde Dinah suspeitava ocorrer a execução da distribuição das drogas. Lá, ele vê Dinah amarrada, torturada, ensanguentada e à beira da morte. Num diálogo anterior, os torturadores conspiravam entre si e insinuavam até mesmo judiar sexualmente da pobre Dinah, indefesa até então. Sem hesitar, Oliver invade a localidade, mata seu torturador (que era alguém que Shado queria eliminar) e outros presentes no laboratório de entorpecentes. Após saber do ocorrido nas docas, Magnor adverte seu contato na CIA, Osborne, de que ele quer uma proteção maior no próximo acordo. Osborne indica o especialista em armas Eddie Fyers para eliminar Shado.

 

  • Após matar outro alvo, Shado deixa uma mensagem para Oliver, dizendo que a encontre no Monte Rainier – é nesse lugar que ela pretende matar Magnor. Embora Oliver inicialmente tente detê-la, ele nota Fyers apontando um rifle Sniper na direção de Shado e acaba atirando nele primeiro. Mesmo sem querer, a situação acaba dando a Magnor uma chance de fugir. Oliver também confronta Osborne. Este último usaria um traficante de drogas para mandar fundos de um acordo com o exército iraniano, para os Contras da Nicarágua (esse trecho da narrativa foi, na verdade, uma tentativa de estender à trama um braço do Caso Irã-Contras).

 

  • É chegado o momento, então, de Oliver enfrentar Magnor em seu próprio escritório. A intenção do Arqueiro é incriminá-lo pelo assassinato do traficante, mas Shado atira e o mata. No epílogo, Oliver permanece ao lado de Dinah até que ela acorda no hospital, após o tratamento dos ferimentos do último ato da história. Quando ela diz que punirá todos os responsáveis, Oliver se antecipa e diz que não sobrou nenhum. Ollie puxa novamente o assunto de ambos criarem uma família e casarem. Ela se diz grata pelo que já possuem e deixa em aberto qualquer possibilidade com um “talvez” enfático – dando a entender que ela cedeu um pouco na posição inicial cética de casar e ter família, e pode ceder ainda mais.

 

3 – A AVALIAÇÃO
Os três livros de Os Caçadores. CLIQUE PARA AUMENTAR.

A primeira coisa que salta aos olhos quando o assunto é “Os Caçadores” é a arte. Quando a percebemos, visualizamos que os quadros possuem sensações opostas: por vezes, temos a sensação de que o desenhista tentou ser econômico (existem vários momentos em que a cor branca predomina, e a ausência de elementos dá um feel vazio a esses quadros, uma coisa bem natureza-morta). Por outras vezes, vemos arte complexa, muito bem desenhada e aparentemente colorida à mão. Essa pegada é bastante adulta – contrastando diretamente com vermos traços bem definidos, assim como a ambientação e cores, como habitualmente é o caso nos quadrinhos decenautas – e se soma muito bem à tentativa da história de estabelecer um conto de meia idade para Queen e Lance. O roteiro não chega a ser genial… pelo contrário: em alguns momentos percebemos alguns clichês e dúvidas bem pertinentes (como, por exemplo, por que motivo Dinah não usou seu grito supersônico como arma a ser utilizada, e permitiu que ela fosse brutalmente torturada). Mas satisfaz, e muito.

Série questiona o futuro
Dinah é severamente agredida. CLIQUE PARA AUMENTAR.

Na abordagem atual de Oliver Queen, temos um homem problemático e cheio de desafios a serem cumpridos em prol de sua cidade, de sua família, de seus amores e da superação de um passado bastante traumático. Ollie é tido como um homem extremamente inteligente, muito bem treinado e com valores intensos, ainda que por vezes polêmicos. Em sua série de TV, Arrow, Oliver é um herdeiro bilionário e um grande pecador. Tivemos a personagem Shado presente por algum tempo na atração da CW, também. E por isso mesmo a abordagem em The Longbow Hunters é tão positiva: numa idade um tanto mais avançada, não se trata mais das incertezas que se tem quanto aos afazeres de hoje. Com dúvidas como as de Queen e Lance quanto a ter família, o questionamento passa a ser quanto ao futuro. Façamos qualquer coisa agora, o que seremos depois? Um casal de super-heróis? Marido e mulher? Pais? Ou vítimas? A preocupação de Dinah é absolutamente legítima, e a série ganha muitos pontos quando traz à tona a discussão sobre a importância de se ter alguém que se ama, a importância da família, a importância dos pais e o compromisso dos que trazem filhos ao mundo e não tem responsabilidade sobre o que vivem. O que a série diz é que, por maiores que sejam os sonhos que você tenha, eles devem se responsabilizar por possíveis vítimas. Não podemos ser tão egoístas e fugir do nosso dever, nem por um segundo.

Dúvidas à parte, os grandes pontos positivos do título se sobrepõem facilmente aos seus defeitos. E assim sendo, a série não só cumpre seu papel de informar, mas também o de fazer o leitor questionar a que viemos, qual o seu papel e o lugar que temos no mundo. Pela originalidade e por surpreender o leitor, Os Caçadores merecem um 8.5.

 

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

%d blogueiros gostam disto: