DESIGNATED SURVIVOR | Crítica 1ª temporada (com spoilers)

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Nos Estados Unidos, um membro do gabinete é um indicado para permanecer num local fisicamente distante, seguro e secreto do restante do governo, quando o presidente e os demais líderes do país estão num mesmo lugar. Se um evento catastrófico tomar forma — isto é, na ocorrência de um ataque ou acidente no qual morram tanto o presidente quanto o seu vice, o oficial sobrevivente de mais alto posto na linha se tornaria o Presidente em Exercício dos Estados Unidos segundo a lei de sucessão presidencial (Presidential Succession Act, de 1947 na versão atual). Este membro é denominado “Sobrevivente Designado” — Designated Survivor, em inglês.

A série diz respeito a uma versão dos fatos na qual o sobrevivente designado Tom Kirkman — interpretado por Kiefer Sutherland, o Jack Bauer de 24 Horas — toma posse oficialmente como presidente americano após um ataque terrorista explodir o Capitólio e, com isso, matar todo o Congresso e também o gabinete presidencial (com exceção de si próprio, que até então era o Secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano daquele governo). Inicialmente amedrontado por subitamente adentrar a cadeira mais importante do planeta, Sutherland se descobre aos poucos na pele de seu personagem. Com o passar dos episódios, fica cada vez mais fácil acreditar nele como presidente graças à sua boa atuação.

À primeira vista, Designated Survivor soa como um mix de drama político e Thriller conspiratório; e em termos gerais até cumpre o que promete, visto que se mescla o clima preocupado dos bastidores de Washington com a tensão das investigações do Bureau. No entanto, o perfil dos personagens — apesar de sua boa personalidade — é comum e não surpreende, esfriando a tensão da série em momentos de maior questionamento dos fatos e incerteza sobre demais ramificações dos acontecimentos. Espanta ainda, na verdade, que essa seja a tônica seguida quanto a personagens em poderes tão importantes e de origem e conduta tão diversa.

Temos o desenvolvimento de alguns personagens importantes numa segunda casta, como o então chefe da casa civil Aaron Shore (interpretado por Adan Canto), que possui grande força de vontade e fidelidade, mas peca por impulsividade; Emily Rhodes, que é pessoa de confiança de Kirkman e tem determinação enorme (interpretada pela belíssima Italia Ricci); Seth Wright, o secretário de imprensa bem-humorado de ascendência proveniente do Oriente Médio (interpretado por Kal Penn, que já trabalhou na Casa Branca); Hannah Wells, a Badass do FBI que tem faro extremamente apurado e astúcia para seguir novas pistas (interpretada pela “Nikita” Maggie Q, que também fez Missão Impossível III); Alex Kirkman, a primeira dama que é também um porto seguro sentimental e fiel ao protagonista nos momentos mais complicados da série (interpretada por Natascha McElhone); e Kimble Hookstraten, a presidente da Câmara que não faz questão de ser ética, ameaçar e intimidar politicamente quem quer que seja (interpretada por Virginia Madsen).

A crise que se instala após o atentado terrorista soa interessante quando os demais líderes do governo parecem questionar o presidente que, por ser um sobrevivente designado, não foi eleito pelo povo — ainda que indicado por alguém do gabinete. O show força um pouco a barra em trazer temas de preocupação pública — como a política de refugiados, racismo, tolerância e preconceito racial — e fazê-los tomar a cena num momento de enorme instabilidade do próprio poder executivo. Ficção ou realidade, o fato é que não é difícil prever que o público americano, por ser bastante preocupado com a liberdade, e a mídia, ao refletir o tempo inteiro o seu próprio sistema político, dificilmente daria enfoque real a temas cotidianos se sua própria democracia estivesse em frangalhos. O show insiste neste roteiro por vários episódios e, ao desenvolver algo que não começa igualmente bem, traz uma trama inverossímil.

Faltou brilhantismo também na retratação de um incidente bastante pretensioso: após começar a se desenhar subliminarmente que a ameaça terrorista foi, na verdade, tramada internamente (por traidores), esperamos bastante tempo até vermos de fato a aparição de Nestor Lozano — o soldado responsável pela execução dos ataques. Descrito pelos próprios comparsas como um “soldado de verdade”, não temos muitas impressões das aspirações do personagem e nem da construção do mesmo. E podemos dizer isso igualmente de vários personagens secundários que poderiam ter se tornado importantes com o desenvolvimento da trama de mais de vinte episódios — o que nos possibilita entender que tempo não faltou para que o fizessem.

O medo de arriscar é latente inclusive quando, embora reconheçamos que se trate de gênero bem diferente, observamos a demonstração de impiedade que o drama político mais reconhecido hoje em dia, House of Cards, traz à Casa Branca, por exemplo. A abordagem de poder suntuoso, perverso e feroz e o multilateralismo de pontos de vista em cada prática fazem Designated Survivor, politicamente, parecer adolescente e ultrapassado. E nem é o caso: Sutherland vai muito bem como um presidente que se descobre, a trama é previsível por mais que no limite, e os desdobramentos sempre prometem bem, ainda que deixem uma sensação estranha numa lógica conclusão.

Mas talvez essa seja a exata tradução da série: ainda que limitada, Designated Survivor é uma boa tentativa de respirar. É um esforço em vão, mas que pela honestidade precisa ser — pelo menos um tanto — aplaudido.

 

(Sinopse via Wikipédia)

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