Cinema
185Visualizações 0comentários

OPINIÃO | Tomb Raider é previsível, mas sincero

Poronmarço 15, 2018
Detalhes
 
Classificação
Duração

118 minutos

Estúdio

Warner Bros., MGM, GK Films

Positivos

Interpretação de Vikander
Clima do remake respeitado
Bons visuais

Negativos

Roteiro previsível
Insistência em perseguições
Trilha original sobrecarregada

Nota do editor
 
Atuação
65%

 
Roteiro
40%

 
Fotografia
75%

 
Trilha sonora
50%

Pontuação Total
58%

Hover To Rate
Nota dos usuários
 
Atuação
83%

 
Roteiro
44%

 
Fotografia
78%

 
Trilha sonora
69%

Classificação dos usuários
8Classificações
69%

Você classificou isso

 

O histórico de adaptações de games é bastante negativo. Super Mario, Street Fighter, Double Dragon, House of the Dead, The King Of Fighters, Alone in the Dark, Dead Or Alive, Tekken e Need For Speed são exemplos de franquias exploradas pelos cineastas hollywoodianos e até do exterior americano; tais produções são execradas, na esmagadora maioria das vezes. Resident Evil, que é uma franquia famosa nos games e de produção de média escala nos filmes, tendo resultado final igualmente sempre bem abaixo da expectativa, acaba sendo considerado um sucesso relativo, mas nunca cumprindo com o desejo dos maiores fãs: uma adaptação fiel, que traga às telas o clima, a tensão e a insegurança da saga. Silent Hill (2006) é um filme longo para a história contada, embora reproduza elementos do jogo muito bem, e Mortal Kombat (1995) é bastante inocente por homenagear filmes de luta mais antigos numa audiência crítica, mas em ambos é fácil notar que houve trabalho, tentativa real de acerto e, até certo ponto, boas escolhas em liberdade artística.

Mas isso é até certo ponto, e só. Via de regra, tais filmes são artisticamente bastante pobres e recheados de propostas questionáveis.

E em função de tal histórico, todas as vezes em que jogadores descobrem que um novo jogo será adaptado, os calafrios são inevitáveis. Seria o Reboot da saga da musa noventista dos jogadores, Lara Croft, mais um capítulo da supracitada triste sequência de derrotas? Como manter uma expectativa alta diante de tantas tentativas problemáticas? Ora, nem mesmo a dupla de filmes em que a premiada Angelina Jolie faz a personagem se salvou. Seria tão difícil assim adaptar o amálgama de armadilhas, exploração de ambientes e quebra-cabeças num bom filme?

Eis então o filme deste ano. Dirigido por Roar Uthaug e produzido por Graham King (que coproduziu o vencedor do Oscar Os Infiltrados), na prática Tomb Raider é mais uma jornada de superação de uma heroína; de uma mulher nada simples, porém autêntica, que a põe no lugar que merece e que sempre foi de Croft para os gamers a partir de meados da década de 90: o de um símbolo da própria geração. A previsibilidade do roteiro é latente e em poucos minutos é um tanto quanto possível prever o tipo de filme que passa na tela, o que sempre é muito indesejável. Mas pela sinceridade da produção em buscar um filme que inicie o universo de Tomb Raider (e abra espaço inclusive para adaptações de outros filmes de games que coexistam no mesmo universo) e apresente uma personagem principal humanizada, muito mais do que meramente forte e decidida — o que acaba sendo a parte final da sua autodescoberta — não podemos esperar demais. E é justamente em torno deste elemento que o filme tem sua parte mais interessante.

A interpretação de Alicia Vikander não é algo no nível do Oscar, mas traz como marca uma das raras vezes em que alguém — ou ainda, uma atriz, o que parece ser ainda mais difícil — parece se encaixar muito bem no papel de um personagem que vem dos consoles. Não bastando demonstrar beleza própria e natural, Vikander apareceu mais musculosa e treinada para o papel do que o habitual, eventualmente inclusive fazendo as cenas normalmente associadas a dublês. A voz rouca é característica inequívoca da atriz e, mesmo nas piores cenas, é possível criar empatia pela causa de Lara, que é alguém que tenta dar sentido à própria vida — o que nos diz que havia profundidade no mínimo razoável de atuação.

Richard Croft é interpretado por Dominic West, que já havia feito par pai-filha com Alicia em Juventudes Roubadas (2014), e é apenas razoável no resultado. O antagonista do longa é Mathias Vogel, interpretado por Walton Goggins, que fez filmes Tarantinescos como Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2016), e não faz feio. No mais, as atuações são bem superficiais e desde o texto não parecem querer aprofundar a relação dos personagens com Lara.

Vogel é um rival de Richard Croft na busca pela tumba de Himiko, a rainha de Yamatai que teria poder sobre a vida e a morte. A sua agenda pessoal, obviamente, passa por chegar ao então tesouro antes de todos, para que possa entregá-lo ao seu empregador e, consequentemente, poder voltar para casa após mais de sete anos de expedição.

Nossa protagonista, em suma, é compelida pela própria curiosidade a ir atrás de confirmações de que seu pai está morto (ela relutaria em assinar o atestado de óbito do pai, por ser uma pessoa desconfiada e que se baseia em provas, por precisar ter certeza das coisas; e isso é fiel aos jogos). E por ser, nas palavras do próprio Croft, “corajosa” a ponto de ser subestimada pelo mesmo, ela vai até um arquipélago proibido mesmo sabendo que as ordens do pai eram completamente diferentes. Teria Lara uma visão talvez até um tanto epistemológica do seu próprio mundo? Aguardemos por sequências que (des)confirmem isso.

 

 

Nem tudo são flores, no entanto. O filme usa e abusa demais de cenas de perseguição. Embora elas também sejam parte importante dos jogos, elas não meramente o definem. O problema aqui é que, embora o filme tenha excelente captura de imagem e o CG tenha bom nível, a insistência na câmera sobre Lara enquanto ela tenta fugir de algo acaba soando como uma tentativa preguiçosa de resolver as cenas de ação e sobrecarrega a própria trilha sonora (lembrando que este é o filme pelo qual Junkie XL largou a composição de Liga da Justiça), que põe ruídos e percussão reverberada demais nos nossos ouvidos. No mais, a fotografia suja e selvagem é marca registrada também do jogo de 2013, no qual o longa claramente se baseou, e por isso só pode ser destacada a fidelidade enquanto qualidade de ambientação.

O conflito passa por Lara descobrir quem é em meio a uma vida complicada (apesar de ter boa herança, nunca assumida pela mesma), descuidada e mal direcionada em função de dificuldades pessoais e de tudo o que circundou a vida do pai e seu desaparecimento. No momento em que Lara se dá conta de que pode fazer muito mais do que tomar as bordoadas que tomava no início da trama e consegue, ao final da mesma, fugir e completar a missão dada pelo pai, ela também o perde: esse é o momento em que Lara precisa dar seu último salto e passa a buscar certezas sozinha, para só então ser ajudada por eventuais companheiros.

O que o filme deixa bastante claro é que, enquanto alguém não se descobre num mundo tão complicado, não há nada demais se esse alguém cede à pressão e até complica a situação. Também há beleza na fraqueza se não há conformismo com alguma das duas. Todos temos alguma força, mas temos nosso próprio tempo para apresentá-la; se o filme tem script, a vida não tem. E é assim que Lara Croft pode ser percebida em seu longa: um verdadeiro destaque em seu próprio universo num trono que, no contexto dos jogos, originalmente sempre foi dela.

“Citação”

Existe um trecho que precisa ser replicado:

 

Um famoso explorador disse, certa vez, que o extraordinário está no que fazemos, e não no que somos. Eu finalmente saí pelo mundo para deixar minha marca, para encontrar aventuras, mas em vez disso, a aventura me encontrou. Em nossos piores momentos, quando a vida passa diante de nossos olhos, nós encontramos algo… algo que nos faz seguir em frente… algo que nos empurra adiante.

 

Parece uma citação retirada do longa, mas é início do citado jogo de 2013, que também reiniciaria a saga da jovem Croft. A qualidade da adaptação é no mínimo boa e a semelhança do trecho com o filme funciona como mais uma prova de que houve boas escolhas.

Lara segue vencendo o jogo.