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OPINIÃO | O Touro Ferdinando que não inova, mas surpreende

Poron Janeiro 11, 2018
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“Era uma vez um touro chamado Ferdinando…”


 

Muitas animações conhecidas e amadas pelo público há décadas são histórias adaptadas e/ou inspiradas em diversos livros, contos e até mesmo histórias reais.

Na nova animação da Twentieth Century Fox Animation (a mesma de Rio e A Era do Gelo), temos mais uma história tirada do livro homônimo dos autores Munro Leaf e Robert Lawson, escrito em 1936 e traduzido para dezenas de idiomas. Dois anos após o lançamento da obra original, o mundo veria uma adaptação em vídeo para uma animação em curta-metragem, denominada Ferdinando, O Touro. De tão bem-sucedida, ela levaria inclusive o Oscar da categoria referida.

No filme atual dirigido por Carlos Saldanha (que na verdade foi produzido no ano passado, e você que viu o Globo de Ouro no último final de semana pode ter reconhecido o título por lá), acompanhamos a história de um touro chamado Ferdinando, que vive com outros touros — todos criados para as arenas das famosas touradas. Mas este está longe de ser o sonho do protagonista.

 

O contexto histórico e a adaptação para as telonas

A história é ambientada na Espanha; no livro, ela se passa nos anos 30, pouco antes do ataque à cidade de Guernica e início da famosa Guerra Civil Espanhola (1936-1939), e no contexto da já existência dos campos de concentração e trabalho forçado na Europa.

No filme, vemos a transposição clara do material de origem para os dias de hoje, com toda a tecnologia do século XXI, porém sem perder a essência das mensagens passadas na história original e das referências aos acontecimentos à época em que foi escrita. A principal delas com certeza é a importância da paz.

 

O longa

 

Exibindo performance gráfica colossal, o filme se apoia claramente na ideia (talvez um tanto batida, à essa altura, mas de sucesso corriqueiro) de que pode mostrar cenas divertidas, engraçadas e personagens de carisma particular. Apesar disso, não há excessos e os movimentos de cena parecem corretos, com bons takes e excelente captura de movimentos. Aguarde pela cena em que os bichos mostram seus passos de dança… é incrivelmente engraçado e verossímil.

O uso do 3D é um pouco desnecessário; o próprio advento dos óculos é responsável por retirar um pouco da saturação e da nitidez, mas a questão é outra: não há (ou praticamente não há) cenas de perspectiva que precisem de grande profundidade a ser exibida, como por exemplo as do tipo Zoom in/Zoom out (em que a câmera se aproxima ou sai de perto horizontalmente). O único instante em que a tecnologia se justifica mais claramente é aquela, que também consta no trailer, em que Ferdinando consegue evitar de se chocar com um coelho, no chão, usando os chifres como alavanca. No mais, é um tanto supérfluo e atrapalha. Um filme de animação e traços arredondados como os de Ferdinando não traz muita novidade visual à mesa.

O áudio é bastante competente e não compromete, dando suporte à ambientação do filme, que é bastante despretensiosa. Os contextos em que as músicas são tocadas no filme favorecem seu uso. Dale a tu cuerpo alegria, Macarena… Hey Macarena!

Sem grandes desvios, o roteiro consegue ser retilíneo. Não há grandes oscilações, e o andamento da história é mais ou menos preservado o tempo inteiro, segundo aquela fórmula geral das animações que costumamos ver em bons filmes do gênero: bom humor, músicas contagiantes, um conflito excessivamente claro e de discernimento óbvio (já que são feitos para toda a família), e um final feliz e sensação de continuidade. A inovação é uma marca importante a ser alcançada, mas talvez não seja o caso aqui. É fácil acreditar na história em que um touro encara todos os sedentos pelo combate, porque ela mexe com o espectador. O vencedor deve ser homenageado, e o é!

(Menção honrosa aos cavalos alemães que se acham lindos e fazem uma função de guardas do sítio Casa del Toro: uma referência possível aos guardas alemães dos campos de trabalho forçado, que por vezes terminavam por aniquilar os “touros” que não serviam…)

A atuação e a dublagem são simplesmente excepcionais. A personagem de Lupe, a pequena e divertida cabra, merece destaque absoluto: Thalita Carauta, a Dialinda de SOS Mulheres ao Mar e a Betty de O Lobo Atrás da Porta, é monstruosa e confere à personagem uma naturalidade impressionante. Terá sido a personagem montada especificamente para ela, sabendo que o diretor e idealizador do título é um brasileiro? Talvez nunca saibamos.

Mas podemos falar do que sabemos: O Touro Ferdinando é imperdível e precisa do seu ingresso. É uma crítica muito forte à cultura da tourada, e uma nova contextualização de uma mensagem que nunca deixa de estar atual.


Este Review teve a colaboração de Isabelle de Holanda.