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OPINIÃO | Aquaman eleva o nível das águas da DC

by on dezembro 13, 2018
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Fazer um grande filme, seja de que gênero for, pressupõe a existência de duas coisas antes de várias outras: primeiro, que o argumento seja bom o suficiente. Afinal, nenhum de nós se lembrará positivamente de um filme cujo conflito não se desenhe claramente, cujo ritmo seja discutível, que seja enfadonho ou que não seja convincente. A segunda coisa tão importante é a alma: a alma de quem o pensa, de quem o percebe, de quem o faz acontecer precisa estar presente e ser entregue. O meio-esforço dificilmente funciona. Embora essa mistura não seja perfeita (porque são vários os filmes de potencial cujos diretores eram geniais e o trabalho ficou aquém), e as demais razões sejam de uma complexidade de enorme grau (qualidade da produção, objetivo, questões técnicas, interpretação, emprego da tecnologia e etc., bem como a relação entre cada um desses itens), normalmente é como um filme começa a dar certo. A qualidade de planejamento, portanto, deixou de ser luxo e passou a ser, a partir principalmente dos anos 2000, absolutamente crítica e protagonista onipresente.

Imagem relacionadaJames Wan é um diretor reconhecido por bons longas de terror e mostrou na New Line que tem visão privilegiada de universo compartilhado quando estabeleceu as linhas gerais que precedem o Horrorverse – a ligação entre os títulos das séries Invocação do Mal, Annabelle e do longa A Freira. E entre idas e vindas na produção do DCEU, nome não-oficial da ligação entre os filmes da DC atuais, Wan aceitou fazer o longa de um atlanteano Rei dos Mares que seria vivido inclusive pelo Khal Drogo de Game of Thrones, Jason Momoa. Se daria certo? Talvez. Nada necessariamente provável de acontecer, na medida em que se trataria de um título de origem de super-herói – um gênero sobre o qual, até onde se tem notícia, não é de seu domínio. E para completar, a apreensão diante de fracassos retumbantes como o de Liga da Justiça (2017) tanto critica quanto financeiramente, ou criticamente em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e principalmente em Esquadrão Suicida (2016), até certo ponto ainda influencia a visão das pessoas sobre qualquer coisa vindoura dos estúdios da Warner.

 

Projetando melhoras

Omwt44tu oUm detalhe que passa desapercebido à audiência comum é que, mais do que ter ido bem construindo um miniuniverso compartilhado, não é normal James Wan fazer trabalhos ruins. É claro que tal comentário se insere no fato de que Wan é especialista num gênero, mas o chamado Creepy Puppet – como o diretor é chamado nas redes sociais – precisou de vários fãs conscientes o apoiando nessa premissa, conhecendo a empreitada pregressa do diretor, reconhecendo as falhas do DCEU e projetando melhoras importantes por vir.

E eles não poderiam estar mais certos. Aquaman (Aquaman, 2018) é o filme de origem em que Arthur Curry tem definida a sua saga justificando a alcunha já apresentada no trabalho em equipe do ano passado. A princesa Mera é interpretada pela belíssima Amber Heard, funcionando como uma pequena ponte entre Arthur e Atlântida no momento em que esse link não existe; Willem Dafoe é Vulko, conselheiro e Vizir do então rei Orm (Patrick Wilson); e ainda temos Nicole Kidman como a Rainha Atlanna, Yahya Abdul-Mateen II como o vilão Arraia Negra, e Dolph Lundgren (que aparentemente ressurgiu pro Showbiz tendo papéis no Arrowverse e no DCEU, o único do tipo) como o Rei Nereus. O líder de Xebel, se nos quadrinhos é um postulante ao amor de Mera, na versão da telona é transformado no pai dela. Esse detalhe marca uma das principais diferenças entre o material original e sua adaptação cinematográfica.

Só que, se em Liga o resultado foi falho do início ao fim e somente poucos momentos sejam dignos de serem lembrados, em Aquaman existem inúmeros eventos primorosos e nos quais fica claro o esmero do seu diretor. Referências? Muitas, dos contos de Lovecraft (O Horror de Dunwich) a shows antigos como o Stingray; dos quadrinhos da DC aos monstros gigantes dos filmes japoneses do gênero Kaiju; da lenda do Rei Arthur ao mito de Atlântida. Riqueza é algo que está no DNA da Editora das Lendas, e quando temos um diretor com inteligência e formação suficiente, o trabalho ganha a mesma força e alma dos quadrinhos.

E aqui, não falta nada.

 

Águas profundas, menos na atuação

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Pura e simplesmente: a interpretação em Aquaman poderia ser muito melhor! É fácil perceber que falta profundidade à maioria dos personagens. Bem resolvidos de verdade é algo que podemos dizer de Vulko, Orm, Atlanna e Arraia Negra, mas nem mesmo Mera, Thomas Curry (Temuera Morrison) ou o próprio protagonista, Arthur, tem mais detalhes deixados claros. Pode ser um problema da mídia — já que o tempo do longa necessário para detalhamento de personagens poderia se tornar impraticável — ou mesmo das escolhas da direção, já que ninguém sabe de verdade o quanto o ator está apto para desenvolver um papel que lhe é dado. Mas o fato é que a atuação em Aquaman é bem mais limitada do que talvez até nos demais filmes da DC até aqui (com exceção de Liga e Esquadrão, dificilmente superáveis em vários quesitos negativos). O roteiro é simples — mas nunca simplista — e dificilmente deixa a desejar, apesar de deixar as surpresas para as boas sacadas (de novo, Wan é um gênio).

 

Espetáculo técnico

Lycyhpv6 oE o que diabos podemos dizer de uma representação tão bela e inspirada do fundo do mar? Suave, colorido e bem iluminado em terras atlanteanas, o oceano é sublime e dá ao filme a sensação de gigantismo que o cerca tão vorazmente. Inclusive quando deixa ser tenro quando em terras do Fosso, ou parece abandonado nos caminhos entre as localidades, o fato é que sua representação é incrível. Os efeitos especiais de Aquaman demonstram o que o bom gosto da Industrial Lights & Magic, aliada ao crivo e exigências da equipe de VFX de James Wan, é capaz de promover à audiência: uma verdadeira experiência imersiva, especialmente com os óculos 3D. Não chega a atrapalhar, mas em muitos momentos o estouro é maior do que o detalhamento das respectivas explosões. Aparentemente, houve também um gerenciamento correto dos recursos disponíveis: durante a exibição, foi representada a fluidez da água o tempo inteiro com uma espécie de “película” que trazia um movimento claro para um lado e para o outro e parecia estar por cima da tela. É possível reparar nos cabelos de Orm, que estão presos, quando seus fios saem para um lado e para o outro, por exemplo. A boa notícia é que quando isso acontece, tal camada de efeito também pode estar escondendo possíveis imperfeições gráficas. E isso é honesto porque é o resultado final que importa. O áudio do filme tem, especialmente na vida falante subaquática, um filtro um pouco distorcido que representa a captação do áudio enquanto a água figura seu movimento. E esse filtro, apesar de alegórico às cenas, também traz a sensação de submersão bem claramente. Quanto à trilha sonora, fica o destaque para o tema dos inimigos, que insiste numa frase musical bem específica (vocês reconhecerão o PAM-PAM-PAAAAM, não se preocupem) e a desenvolve muito bem sob a batuta de Rupert Gregson-Williams. O tema principal é extremamente bonito e, seja nos momentos de batalha ou nos momentos mais suaves, a trilha sonora acompanha muito bem.

 

 

Enfim, um filme com o tamanho da DC

Aquaman é uma experiência sem igual porque fala com todos: com o verdadeiro fã, com aquele mais casual, e mesmo com pessoas desconfiadas com toda a razão em função da iteração anterior do universo compartilhado atual. É um filme muito bem produzido, de boa história de conquista, de lindos cenários, de origem de super-herói, e nunca deixou de ser um épico per se.

É gratificante observar que o longa se constrói na personalidade do diretor, mas nunca deixa de ser um longa do Aquaman e não se vende a figura do herói gratuitamente. Dado o momento em que era necessário o Rei dos Mares aparecer de verdade e salvar o próprio povo, ele nunca deixou dúvidas.

Ficam aqui todos os agradecimentos a James Wan e demais envolvidos na produção por subirem tanto o nível dos títulos da DC. Não há outro caminho, não há atalho senão o trabalho qualificado e incentivado, já que não há arte sem inspiração e nem há retorno na enganação.

Pois as águas emergiram num Tsunami, e o seu novo rei está aqui.

 

 


 

Agradecimentos à atriz Flávia de Holanda por ajudar o redator em questões específicas sobre o mundo da atuação e do cinema!