Cinema
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OPINIÃO | A Guerra dos Sexos é do interesse de todos

Poron outubro 4, 2017
Detalhes
 
Duração

2h01min

Sinopse

Uma disputa de tênis entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder da classificação mundial Billie Jean King (Emma Stone) se torna centro de um debate global sobre igualdade de gêneros. Presos sob a atenção da mídia e com ideologias diferentes, Riggs tenta reviver as glórias do passado, enquanto King questiona sua sexualidade e luta pelos direitos das mulheres. (via Adorocinema)

Estúdio

Fox Searchlight Pictures

Positivos

Excelentes atuações sobre personagens profundos
Roteiro com ótimo ritmo
Visual agradável

Negativos

Trilha sonora ignora a temperatura do filme

Nota do editor
 
Atuação
95%

 
Roteiro
85%

 
Fotografia
90%

 
Trilha sonora
65%

Pontuação Total
84%

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Atuação

 
Roteiro

 
Fotografia

 
Trilha sonora

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— Você não acredita que as mulheres sejam melhores do que os homens, não é?

— Não, só queremos algum respeito.

 


 

Existem poucas reflexões que sejam realmente atemporais. A maioria das palavras que defendemos ou escrevemos acabam se tornando bastante situacionais, na medida em que os tempos passam e a sociedade muda… e muda muito, não é verdade? Os valores são definidos como as características que ditam como alguém se comporta; dessa forma, basta olharmos à nossa volta para percebermos o quanto os mesmos duram cada vez menos tempo, e que dada a profundidade trazida pela globalização e pela revolução dos meios de comunicação, tais valores se tornam cada vez mais mutáveis. E ainda assim, em meio a um ambiente em que se facilita a mudança de opiniões como algo saudável e até característico dos nossos tempos, há coisas cujos debates continuam sem justificativa suficiente. Uma delas é o papel da mulher na sociedade, que tem uma ilustração bastante clara em A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, no original).

Billie Jean King (interpretada pela cada vez mais bela Emma Stone) é uma tenista profissional que se percebe num caminho sem volta: o da representatividade praticamente forçada das mulheres em uma época onde o machismo é uma constante e uma variável aceita pelo público — que inclusive endossa o comportamento ao rir delas. E num percurso onde, além dos holofotes esportivos, uma simples mulher deveria ter o direito de se redescobrir inclusive sexualmente, a crítica trazida pelo longa da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (Pequena Miss Sunshine) tenta contar uma trama em que por vezes não sabemos qual o background: o preconceito ou o esporte. E é possível dizer facilmente que o diretor o consegue nessa mistura sortuda, e inclusive de forma muito bem amarrada.

No que tange ao roteiro, por exemplo, Simon Beaufoy consegue uma coisa bastante difícil: o ritmo da história, que é basicamente falada e sem grandes cenas de ação ou chamarizes visualmente poderosos, é permanentemente interessante e de bom gosto. É possível apontar, no entanto, que era esperado que houvesse alguns atos de preparação para o evento final. Provavelmente era uma intenção do autor, mas sentimos junto com a personagem de Stone que o evento já era bem maior do que parecia.

A dualidade comportamental expressa pelo personagem Bobby, interpretado pelo versátil Steve Carell (que já havia trabalhado com os diretores em Pequena Miss Sunshine), é um dos pontos altos do filme e trazem uma reflexão muito clara sobre a questionabilidade do papel do anti-feminista. Carell, aliás, que se já é um ator reconhecido, neste longa atinge um nível simplesmente indiscutível de atuação como o apostador compulsivo. Definitivamente a reflexão sob os panos em filmes inspirados por fatos reais está longe de ser novidade, mas em poucas vezes foi possível notar tamanho fundamento. Em dados momentos, o “porco chauvinista” inclusive fala abertamente todos os tipos de absurdos contra mulheres. E nós, do outro lado, sentimos cada pontada de provocação como se fosse conosco — com as nossas mulheres, irmãs, filhas, amigas e demais pessoas do sexo feminino. Os dois personagens principais são cuidadosamente construídos em cenas com este nível de ousadia.

Visualmente, o filme possui um aspecto um pouco envelhecido sem parecer artificialmente ambientado nos anos 70. Há uma sensação confortável de desgaste, de caracterização primitiva, mas sem soar acabada, deteriorada. E como a longevidade da discussão sobre o direito feminino só contribui para a retratação do tema no filme, a verdade é que não havia nada a perder em design se a coisa soasse muito surrada sem parecer obsoleta. O trabalho, no fim, é essencialmente velho, mas no bom sentido — isto é, sem ser datado. Destaque para a representação da transmissão da época que, se não foi retirada do original, é de uma qualidade de reprodução inacreditável.

Já a trilha sonora poderia brilhar muito mais. Ora, estávamos em 1973! O que poucos toques de George Harrison e Elton John dizem sobre uma época em que Marvin Gaye, Diana Ross e Stevie Wonder ditavam as regras da música? A escolha não é ruim, e a mixagem de som parece um tanto simplista, mas fica uma sensação de que uma fidelidade maior sobre a realidade musical da época teria dado ao contexto do filme muito mais densidade.

A própria estrutura narrativa do filme não deixa a desejar, na medida em que a audiência é guiada por vários caminhos ao mesmo tempo — tudo sempre cortado pelas piadas de Bobby, pela doçura da personagem de Stone e pelo feeling inspirador de debates sobre funções, responsabilidades e perspectivas da mulher no mundo em que vivemos. É tudo muito bem entrelaçado e os diálogos são, de alguma forma, curtos; e se alongados, é porque chegam em algum lugar.

Uma mensagem maior

Num mundo como o nosso, onde ser mulher ainda é perigoso mesmo após quatro décadas, alguém precisa representá-la como vitoriosa. Afinal, pensemos como quisermos, todo ser humano tem valor e quase todo lar possui uma mulher. Não se trata de um mero filme de representatividade e de DNA feminista, mas de uma mensagem maior — a de respeito às diferenças, igualdade e fraternidade.

Estamos diante de tudo o que um filme deve ser: poderoso, mas crítico. Único em si mesmo, mas coerente com outras produções. Denso na mensagem, mas leve na postura. Controverso, sem dúvida, mas talvez até inocente. Um longa que traz em sua bagagem a ideia claríssima de que, independentemente de qualquer ideologia a ser seguida, alguém precisa cuidar das pessoas injustiçadas, vitimadas e subestimadas. Mas que ainda assim é, de alguma forma, insuspeito.

Uma mãe terá gerado o último homem machista da humanidade. Será que ela descansará em paz e terá conhecido exemplos como o de Billie Jean?