Batman vs Superman Parte IV – Por que a maioria gosta mais do Homem-Morcego

Os economistas Jimmi Frazier e Eldon Snyder publicaram um extenso estudo em 1991 onde comprovaram que a maioria das pessoas prefere “torcer pelo mais fraco”, no que chamaram de “economia emocional”, um ato na qual a maioria esmagadora das pessoas assume um comportamento hedonista diante de uma peleja qualquer em que não esteja diretamente envolvido, buscando sempre a maior emoção possível diante do resultado que virá, de modo que, ao se colocar do lado daquele que não é o maior favorito à vitória, um eventual triunfo do mais fraco trará uma recompensa – ainda que meramente emocional – maior.

O estudo referia-se basicamente a uma situação esportiva, porém passou a ser base para diversos outros estudos psicológicos acerca do tema, já que aplica-se a praticamente qualquer situação de vida de uma pessoa, que terá sempre a tendência a torcer pelo “menos favorito” em um confronto, seja ele qual for.

Então, em um eventual confronto entre os dois ícones emblemáticos da DC, já existe uma preferência natural das pessoas em torcer pelo, teoricamente, mais fraco, ou menos favorito à vitória.

BatmanVsSuperman11 - SuperCertinhoAlém disso, o Superman ainda apresenta outro problema grave, que é sua virtuosidade. Alguém tão bom, tão “perfeitamente correto”, gera uma aversão quase que imediata das pessoas normais, por falta de identificação.

O personagem que deveria ser um exemplo de correção e caráter vira o “Superbabaca” para muitos leitores, simplesmente por não aceitarem suas virtudes e, sem se darem conta, por considerarem-nas inalcançáveis para eles próprios.

Em Assim falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra – 1883), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche definiu o arquétipo do Übermensch, o “Além-Homem”, ou, resumidamente, o Super-Homem, mas não o personagem e sim o ideal máximo de arquétipo almejado pelos seres humanos. A obra, que influenciou sobremaneira o mundo moderno e serve de base para estudos psicanalíticos da mente humana, mostra como é difícil para o homem alcançar a virtuosidade ideal que lhe seria objetivada.

Assim, fica ainda mais fácil entendermos porque as pessoas se identificam mais com o Batman do que com o Superman. Como se não bastassem os comportamentos de cada personagem com relação à manutenção do status quo, ainda há a virtuosidade exagerada e praticamente inatingível do kryptoniano, que o distancia da simpatia do homem comum.

Em termos gerais, o Superman é o ideal que deveríamos atingir, mas que não conseguimos. Por isso “não gostamos dele”, pois seu simples conceito esfrega em nossas caras o que deveríamos ser, ainda que tivéssemos poder para fazer qualquer coisa. O Azulão nos mostra que não somos bons o suficiente, e que não agimos da maneira como deveríamos.

BatmanVsSuperman11 - QuemQueremosSerJá o Batman é o inverso, ele nos mostra o que podemos – de fato – fazer, ou ser. Enquanto Kal-El é o que deveríamos ser (mas falhamos em conseguir), Bruce é o que podemos ser. Gostamos mais do Homem-Morcego, então, já que ele não é tão bom, tão correto, tão cumpridor das leis e normas, além dele preferir enfrentar o sistema ao invés de inspirar os outros a mudá-lo.

Algo similar ocorre com a simpatia preferencial pelo Homem-de-Ferro em detrimento do Capitão América, ou pelo Wolverine ao invés do Ciclope, etc, sempre com o “certinho demais” sendo atacado justamente por sua virtuosidade, e sendo preterido – em termos de popularidade – pelo personagem que é “menos bonzinho” e se enquadra menos no arquétipo de perfeição intangível com o qual tanto temos dificuldade em nos identificar, como no caso do Superman.

Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, afirma sobre o Homem-de-Aço:

A personagem mitológica da estória em quadrinhos encontra-se, pois, nesta singular situação: ela tem que ser um arquétipo, a soma de determinadas aspirações coletivas e, portanto, deve, necessariamente, imobilizar-se numa fixidez emblemática que a torne facilmente reconhecível (e é o que acontece com a figura do Superman).”

Eco foi um dos primeiros, já nos anos 60, a notar como o Superman é complicado, conquanto personagem, para identificação dos leitores. Eco mostrou como o Superman tem como objetivo manter o status quo da sociedade que ele adotou, e não mudá-la seguindo algum padrão que ele julga melhor. Superman não quebra as leis, mesmo as que julga injustas, diferentemente, por exemplo, do Batman. Kal-El não tentará depor governos ruins ou fazer reformas sociais em qualquer país, mas sim buscará ser o exemplo de conduta e comportamento para inspirar os outros a buscarem as mudanças que julgam convenientes. Enquanto isso, Batman, ao invés de esperar os outros se inspirarem nele, combate diretamente o problema, que é o que nós gostamos mais de ver acontecer.

BatmanVsSuperman11 - SuperCertinho2Ou seja, apesar de bacana e bonito, o conceito de inspirar a mudança em terceiros não é muito popular, visto que o ser humano comum – cansado da injustiça social e dos desmandos governamentais – quer mais é a ruptura do sistema vigente e o alcance rápido, quase que imediato, de uma situação melhor, via confrontamento do establishment, de preferência.

É evidente, porém, que ninguém – ou quase ninguém – vai admitir que prefere o Batman por ele ser alguém mais próximo, em termos de humanidade, e menos virtuoso. A maioria dos batfans, claro, justifica sua preferência puxando argumentos que lhe sirvam para camuflar essa escolha (muitas vezes inconsciente) pelo mais falho. Alegam admirar sua inteligência, o fato de não possuir poderes, sua personalidade soturna, etc…

“O Batman é mais legal!”, alegam eles. Mas agora sabemos que não é bem assim que nossa mente, de fato, vê essa preferência pelo Homem-Morcego.

Um exemplo claro disso podemos ver nas piadinhas e memes da Internet a respeito de ambos os personagens. A maioria das tiradas contra o Superman são sempre questionando sua retidão de caráter e atitudes, zombando de suas virtudes. São piadinhas toscas de cunho até sexual, com o único objetivo de diminuir e desmerecer o personagem. Já as zombarias contra o Batman costumam ter fundamentação nas próprias HQs e questionam, na maioria, justamente suas capacidades exageradas que, quando comparadas com Kal-El, ainda assim são, na verdade, “mínimas”.


Este artigo foi publicado originalmente no Maxiverso.


Confira nos links abaixo os demais capítulos deste estudo:

Parte I – Frank Miller subverte o Batman e muda seu status
Parte II – Liga da Justiça de Grant Morrison perpetua a distorção
Parte III – A DC diminui o Superman e aumenta o Batman
Parte IV – Por que a maioria gosta mais do Homem-Morcego (lendo este)
Parte V – Analisando a famosa batalha usada como modelo
Parte VI – Exemplos de lutas contra um Homem-de-Aço verossímil
Parte VII – O veredito é: essa luta tem uma vitória fácil e lógica

Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

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