BOJACK HORSEMAN | Crítica 4.ª Temporada

Eu sempre falo muito sobre Bojack Horseman, e tenho motivos para isso. A série aborda temas importantes com o seu humor ácido, sejam eles drogas, fama, pais abusivos ou doenças mentais. Mas, talvez, o maior diferencial dessa temporada tenha sido sua sensibilidade com os problemas tratados.

Aqui nós encontramos um Bojack (Will Arnet) depois dos acontecimentos da morte da Sarah Lynn (Kristen Schaal), tentando encontrar a si mesmo na antiga casa de campo da sua família. É nesse momento que o encaramos mais fragilizado; ele não sabe para onde ir (nunca soube) e nem aonde vai chegar. E finalmente, depois de tanto tempo, estamos o vendo tentando fazer a coisa certa dessa vez. Claro, o mesmo falha várias vezes e reluta em mudar, mas ninguém contava com Hollyhock Manheim-Mannheim-Guerrero-Robinson-Zilberschlag-Hsung-Fonzerelli-McQuack.

A chegada de Hollyhock muda as perspectivas de BojackA visão de ter uma filha, tão parecida com ele mas sem uma bagagem de erros nas costas, faz com que o nosso odiado cavalo tenha uma epifania. Quem sabe dessa vez ele consiga fazer a coisa certa…

Além da ótima exploração da relação pai-filha entre Bojack e Hollyhocknós vemos mais da relação entre Bojack e Beatrice. Tudo o que nós sabíamos sobre sua amarga mãe é que ela foi uma experiência traumática para qualquer criança, mas então chega o fator que essa série já está cansada de nos explicar: todo mundo já teve a sua própria experiência traumática.

Logo no primeiro episódio temos vislumbres do passado de Beatrice que, ainda criança, viu a saúde mental da mãe se deteriorar com a morte do filho mais velho, na Segunda Guerra Mundial.

“Me prometa Beatrice, me prometa que nunca vai amar ninguém com a mesma intensidade que amei Crackerjack”

Beatrice deixa de ser uma personagem unilateral, que servia apenas como razão dos problemas do filho. Ela também teve os próprios problemas e não soube lidar com eles. Para piorar a situação, nós acompanhamos tudo isso com a personagem já idosa, sofrendo de demência — o que aumenta o sentimento de empatia que talvez ninguém estivesse preparado para ter.

E, mais uma vez, o programa bate na seguinte tecla: só você conhece o fardo que carrega. Beatrice foi uma mãe horrível, incapaz de mostrar o mínimo de afeto possível por qualquer pessoa. Porém, ao olharmos para seu passado e encararmos todos os tipos de desavenças que ela passou, é muito difícil sentir algo além de pena; quem antes era uma vilã, agora é uma senhora de idade com problemas mentais severos.

Até mesmo Bojack percebe isso quando, para confortá-la, diz que a mesma está na sua casa de campo tomando sorvete, enquanto Crackerjack toca piano.

Bojack Horseman faz um ótimo trabalho de roteiro ao trabalhar problemas mentais. Em dois episódios específicos nós vemos a ansiedade de Bojack (com vozes na sua cabeça dizendo que todos o odeiam e que ele está fazendo tudo de errado) e a demência de Beatrice (que já não consegue lembrar dos rostos das pessoas, e distorce muitas memórias). É muito interessante a simplicidade com a qual o roteiro trabalha com isso, e ainda assim nos faz entender perfeitamente o que os personagens estão passando.

Outra coisa que eu percebi é como Bojack está separado do resto dos personagens principais, dando espaço para que os mesmos se desenvolvam de maneira apropriada. Todo mundo ali precisava de um tempo longe dele, do mesmo jeito que ele precisava estar longe de todos para lidar com seus próprios demônios.

Todd (Aaron Paul), Princess Carolyn (Amy Sedaris), Diane (Alison Brie) Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) estão passando por seus problemas pessoais, como lidar com a sua assexualidade, a dificuldade de ter uma família, a tentativa de salvar seu casamento e a disputa para ser governador da Califórnia que começou em uma corrida de esqui.

Bojack Horseman continua com o seu humor bem específico, ácido, emocional e vai te fazer chorar muito. Mas, ainda sim, dá um show de roteiro e nos faz repensar nossas atitudes.

Milena Matias

Estudante de jornalismo, 19 anos e com um amor enorme por video-games. Séries e cinema são os segundos amores da minha vida.

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