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OPINIÃO | Uma Piada Mortal e absoluta

by on janeiro 23, 2017
 

Hoje, você se deparará com aquela que é considerada por fãs e críticos a origem definitiva do Coringa, que não bastando ser o maior vilão do Batman e um dos maiores da DC, é também um dos grandes ícones da cultura pop de nossos tempos. Em um conto rápido, gravíssimo nos acontecimentos e psicodélico, a Piada de Alan Moore é uma das maiores experiências que você terá para ler.

Seja bem-vindo (a) ao seu dia ruim.


1 – O Contexto

INFORMAÇÕES BÁSICAS. CLIQUE PARA AUMENTAR.

Sabemos que algumas histórias são boas, outras espetaculares; há também as medianas e algumas são realmente ruins. Existem autores de todo tipo, do oportunista ao superficial; do talentoso ao verborrágico. Mas, A Piada Mortal (1988), do absolutamente genial Alan Moore, é uma Graphic Novel que não deixa dúvidas em nenhum dos dois quesitos citados: a história é marcante e influente sobre a personalidade do Coringa em praticamente todas as HQs que vieram depois desta, até hoje; e seu autor é o mesmo de Watchmen e V de Vingança, frequentemente citado como o maior escritor de quadrinhos da história. A Piada, que também estabelece a fundação para a reinvenção de Barbara Gordon (Batgirl), venceu o Eisner Award de 1988 – que pode ser considerado o Oscar das HQs – para Moore pela segunda vez (sendo a primeira justamente Watchmen). O autor venceria ainda outras vezes, por conta de petardos como Do Inferno (que expande a mitologia de Jack, o Estripador) e A Liga Extraordinária (uma junção de vários personagens da ficção da Era Vitoriana, aclamada pelo público).

Exigente que é, Moore sequer é um grande fã da sua Piada. Em sua opinião, entre outras coisas, houve uma retratação muito sangrenta e violenta no curso deste título. A Piada foi criada para que houvesse um alerta para os outros no sentido de recomendar maior criatividade e demonstrar o tamanho do potencial que os conceitos de super-herói em quadrinhos possuem, até mesmo ao serem desconstruídos. No entanto, por ter sido absorvido pela cultura pop no geral, Alan ficou bastante desapontado.

Os fãs da DC Comics, muito respeitosamente, discordam dessa avaliação – ainda que ela venha de seu próprio autor. No fim das contas, este trabalho é uma concepção até simples, mas de realização poderosa e corajosa num nível em que talvez só Moore seria capaz de prover ao público. Alguns quadros desenhados por Brian Bolland ficarão para sempre em sua mente. Gostemos ou não dessa publicação, o ponto central aqui é que ninguém desconfia do tamanho da influência causada por ela. E basta ler para perceber o motivo.

2 – Os acontecimentos

ATENÇÃO! O texto a seguir contém spoilers. Recomendamos fortemente a leitura particular da obra, para que você tire suas próprias conclusões.

A origem do Coringa é demonstrada. CLIQUE PARA AUMENTAR.

Seguem então os principais acontecimentos da saga, dispostos em ordem cronológica.

  • O homem que se tornará o Coringa é um engenheiro desconhecido que desistiu do emprego numa companhia química para se tornar um comediante Stand-up, mas falhou miseravelmente. Desesperado para manter sua esposa grávida, Jeannie, ele concordou com guiar dois criminosos pela indústria química onde trabalhou – assim eles poderiam roubar a fábrica de baralhos que ficava logo ao lado. Enquanto planejavam os passos do crime, a polícia o informou de que sua esposa tinha morrido num acidente doméstico. Em luto, o engenheiro tentou desistir do plano, mas os criminosos associados forçaram o pobre homem a participar assim mesmo.

 

  • Na fábrica, os criminosos o fizeram usar uma máscara especial, que o fez se tornar o infame – e já reconhecido pela sociedade – Capuz Vermelho. Desconhecido ao engenheiro, os criminosos planejavam usar este disfarce para implicar o verdadeiro Capuz Vermelho e tirar o foco deles, os reais culpados. Uma vez dentro, eles encontraram seguranças, um tiroteio aconteceu e dois criminosos foram mortos. O engenheiro então foi confrontado por Batman, que estava investigando o incidente.

 

  • Aterrorizado, o engenheiro pulou nos dejetos químicos da indústria para fugir de Batman e foi arrastado para uma tubulação que levava para fora. Nesse momento, ele descobriu – para seu próprio horror – que a química da substância onde havia se jogado alterou permanentemente características de seu corpo: a pele passou a estar branca feito giz, seus lábios estavam manchados de vermelho forte e seus cabelos estavam coloridos em verde claro. Sua desfiguração, somada às perdas da mulher e do bebê, o deixou completamente insano e assim ficou marcado o nascimento do Coringa.

 

  • Barbara Gordon é vítima de violência sexual. CLIQUE PARA AUMENTAR.

    Nos dias atuais, Batman vai até o Asilo Arkham para falar com o Coringa a respeito de terminarem a rivalidade de anos, apenas para se dar conta de que o Joker escapou e deixou um impostor em seu lugar. Pouco depois, o Coringa atira em Barbara Gordon em seu estômago, tornando-a paralítica, e rapta seu pai, o Comissário James Gordon. O Coringa aprisiona Gordon em um parque de diversões. Seus capangas então espancam Gordon e o prendem num “Trem Fantasma”. O Coringa acorrenta Gordon em um dos assentos do trem e força-o a ver fotos gigantes de Barbara, no chão e com dores. Após o término do passeio, o Coringa põe em Gordon o foco do show de horrores, ridicularizando-o como o “homem comum”, um ser pobre e patético condenado à loucura.

 

  • O confronto derradeiro entre Batman e Coringa acontece aqui. CLIQUE PARA AUMENTAR.

    As tentativas de Batman de localizar o Comissário Gordon não têm sucesso até que o Coringa envia a ele uma pista, que o leva até o parque onde o mantém preso. Batman chega para salvar Gordon, e o Coringa recua para a Casa Mal-Assombrada. Embora traumatizado pela provação, Gordon permanece com sua sanidade e código moral, e insiste que Batman capture o Coringa “conforme as regras”, para “mostrá-lo que nosso jeito funciona”. Batman entra na Casa Mal-Assombrada e esquiva das armadilhas do Coringa, enquanto este último tenta persuadi-lo quanto ao mundo ser uma “piada sombria e ruim” e que “não vale a pena lutar por ele”, e que basta “um dia ruim” para que se transforme um homem comum em um insano.

 

  • Batman domina o Coringa e diz a ele que Gordon sobreviveu à sua tortura. Ele sugere que o Coringa está sozinho em sua loucura. Ele tenta se aproximar do Coringa e se oferece a ele para ajudá-lo a se recuperar, para dar fim à guerra entre os dois – guerra que Batman teme um dia resultar na morte de algum deles. O Coringa recusa, dizendo que já é tarde demais. Ele então diz que essa situação o lembra de uma piada sobre dois internos de um hospício que tentam fugir do mesmo. Um interno pula por cima de um vão entre o asilo e o prédio seguinte e chega ao destino, enquanto o segundo hesita por medo de cair lá embaixo. O primeiro então se oferece para iluminar com uma lanterna o vão entre os prédios, para que o outro possa andar por ele. O segundo então responde, “O que, você acha que sou louco? Quando estiver no meio do trajeto, você vai apagar a luz da lanterna! ”. Batman não resiste e se diverte: e os dois velhos inimigos riem enquanto a polícia chega.

 

Um final controverso

A última página de The Killing Joke deixa tudo em aberto. CLIQUE PARA AUMENTAR.

Alguns pontos de vista são possíveis para a interpretação desse final, que parece ter sido escrito pelo genial Alan Moore com a intenção de suscitar dúvidas. Façamos uma análise de algumas interpretações possíveis:

  1. Batman quebra o pescoço do Coringa e isso é o que faz a risada parar abruptamente, nos últimos quadros. Alguns concluem assim que o título “A Piada Mortal” é uma referência à essa cena final. Nela, Coringa e Batman riem de uma piada e, logo depois, o Morcego mataria o Coringa. Como já sabemos que Batman é qualquer coisa menos um escoteiro, essa interpretação é possível. Já quanto a se é provável, é você quem sabe.
  2. Após anos lutando, Batman e Coringa terminam a rivalidade – ou dão alguma trégua – dando uma boa risada. Eles se reconhecem como loucos e continuam a viver.
  3. Levando em conta que o primeiro e último quadros deste título mostram poças de água de chuva, poderia ser proposital e simbolizar sutilmente que nada mudou: Batman continuará correndo atrás de Coringa, de novo e de novo.
  4. Grant Morrison (que já trabalhou em inúmeros títulos na DC e na Marvel) já deu uma entrevista colocando essa história como uma espécie de conto final de uma cronologia do Homem Morcego (e se você acompanha nossos artigos, já viu isto acontecendo com um certo Kryptoniano). E isso significaria que Batman e Coringa terminariam suas carreiras dando uma boa risada juntos. Poético, não?
  5. E se pudéssemos fazer analogias com a piada? E se Batman for o primeiro louco, oferecendo ajuda ao Coringa como fez no diálogo, e também como na piada acender a lanterna? E se a loucura do Coringa dissesse que é impossível ser ajudado e não tivesse propósito, assim como o segundo louco, que não consegue entender a ajuda oferecida porque pode nem ter a luz para seguir?

 

3 – A avaliação

A Piada é tão bem escrita, tão atemporal e tão influente quanto o assunto é Batman e Coringa, que sequer vale a pena dedicar muito tempo a justificar o óbvio. A única coisa que é possível dizer é que está tudo lá: nessa trama não falta nada, mesmo ela sendo um tanto curta. Quando lê, você consegue perceber facilmente na Piada coisas como:

  1. O risco. É uma história honesta. Você continua falando do maior detetive do mundo, top 3 nos maiores e mais relevantes heróis de quadrinhos. Batman é um ícone cultural, e pelo fato de o Coringa e ele serem ambos resultados de “um dia ruim”, o Morcego tem um peso único. Pode ser bastante complicado se escrever uma história pesada, séria e ainda assim não só manter a identidade dos personagens, mas também aprofundá-las.
  2. A criatividade. É como ver um daqueles espetaculares Thrillers neo-noir de investigação. A narrativa que oscila na linha do tempo, o “não saber o que vai rolar na próxima página”, a surpresa em ver a desconstrução de um personagem como o Gordon… Aquela sensação linda de “E agora? ”, no melhor sentido do mundo.
  3. A controvérsia. O que aconteceu com Barbara Gordon chacoalhou o mundo inteiro, e mexeu com cada fã dos quadrinhos. Da vítima à ativista, do solidário ao leitor mais desprendido, é meio difícil não se chocar ao ler as páginas pela primeira vez. A Piada é a expressão máxima da seguinte situação paradoxal: você verá o Coringa cometer atrocidades, e mesmo assim vai amar o que ele vai fazer. Ou seja, controvérsia. E de manual.
  4. A tensão. Embora não seja o quadrinho com a melhor sequência de ação da DC, fica fácil perceber o quanto a dinâmica entre os personagens é disparada por atos como a invasão da Ace e a posterior briga com o Coringa. Mesmo o questionamento moral pelo qual Batman passa contribui para o clima ficar pesado.
  5. A psicodelia. É realmente impressionante a coloração utilizada por Higgins/Bolland e a quantidade de quadros em que Coringa sorri e tem seus gestos repetidos, como se expressos de forma doentia. A expressão de medo em Gordon. O parque macabro. O gás do riso e o sorriso agressivo.
  6. O diálogo forte. O momento em que Coringa fala sobre lembranças e sobre a prisão que elas podem significar é uma das melhores falas em toda a história dos quadrinhos. “(…) quando você estiver dentro de um desagradável trem de recordações, seguindo para lugares do seu passado onde o grito é insuportável… Lembre-se da loucura. Loucura é a saída de emergência. Você só precisa dar um passo para trás e fechar a porta com todas aquelas coisas horríveis que aconteceram… presas lá dentro. Para sempre. “
  7. O drama. A empatia de Batman por Barbara, no leito. Gordon insistindo que Batman siga as regras, mesmo após ser torturado. O lamento pela vida que o engenheiro desconhecido não conseguia consertar, por passar enormes necessidades. A morte de sua amada. A ajuda que Batman oferece ao Coringa no final.
  8. A arte pura. Simplesmente espetacular, sóbria e ao mesmo tempo divertida.
  9. O final. Porque fechar com chave de ouro pode ser o grande segredo que põe a série nos debates das mesas dos fãs do Morcego de Gotham e do Palhaço do Crime, até hoje.

Simples, curto e, mais do que tudo, justificado, A Piada Mortal merece aquela que talvez vá ser a única Nota 10 dada a uma publicação por aqui. E simplesmente pelo argumento supracitado: neste trabalho de Moore, estamos diante de uma situação em que tudo é satisfeito, e nada está em falta.

E você? O que achou do quadrinho de Moore?

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