OPINIÃO: Morte em Família é escasso, mas importantíssimo

Uma das coisas que mais orgulham os fãs da DC Comics é o flerte que seus personagens possuem com o lado vilão. Tamanha a qualidade e a complexidade das histórias, muitas vezes aquele dito bondoso perde a certeza de ser bom. Em outras palavras, a noção de bem e mal às vezes fica nebulosa, e o personagem em questão acaba se relacionando mais do que o esperado com um lado que não exata ou teoricamente defende. Ao mesmo tempo, não é difícil perceber que os diálogos são parte central e que, portanto, qualquer protagonista precisa interagir com alguém…. Com alguém que o complete e que por ele se torne completo.

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Para os objetivos supracitados – seja para evitar que o super-herói vá para o lado negro ou para criar diálogo útil pro herói – as editoras criaram os Sidekicks: os parceiros, os companheiros. É verdade que muitos heróis não precisam de parceiros para combaterem o crime, ou já possuem mitologia que tenha essa lacuna preenchida em outros personagens que não sejam exatamente parceiros de batalha. Mas naqueles casos onde um herói precisou de um sócio, a tendência sempre foi a de que ele cumprisse funções de companhia e lembrete sobre a coisa certa a ser feita.

Nesse contexto, temos Robin, que é um dos mais conhecidos parceiros de todos os tempos de Batman, o Morcego de Gotham. A encarnação de Jason Todd como Robin veio depois daquela de Dick Grayson, que havia se tornado o Asa Noturna. Mas, apesar de este ser um Robin que apareceria em arcos importantes – e se você leu a publicação abordada no artigo anterior, sabe que ele apareceu praticamente salvando o dia – e ser evidente enquanto parceiro do morcegão, ele também era bastante rebelde. Já foi insinuado inclusive que este segundo Robin teria empurrado um estuprador em série do topo de um prédio… e isso não costuma ser exatamente a política exata de Batman, não é mesmo?

A coisa parece benéfica para os dois: Batman precisa da ajuda de Robin, enquanto Robin precisa de que Batman demonstre que se deve fazer sempre justiça, mesmo quando o inimigo ou os procedimentos da lei forem questionáveis.

E é nesse cenário que surge a dúvida em Dennis O’ Neil quanto a se era importante retirar Robin do contexto ou não, dadas as questões de popularidade baixa e constantes situações de decepção do personagem para seu próprio líder, Bruce Wayne. Para tal, e dentro do contexto pós-Crise, a DC lançaria então Batman: Morte em Família (“Batman: A Death in the Family”, no original), com o objetivo claro de matar Robin.

Uma das maiores controvérsias na história da DC, naquela oportunidade foi criada ainda uma enquete, guiada pelas ligações dos leitores. O anúncio na verdade pedia aos fãs que ligassem para certos números e votassem pela sobrevivência ou não de Jason Todd. Lembrou do Você Decide? Todos estavam céticos quanto a se a editora realmente o faria, e muitos se surpreenderam quando o resultado saiu: o jovem herói realmente morreu. A atitude de deixar o público decidir por um fato tão importante e fundamental para os próximos anos da DC Comics foi alvo de muitas críticas na época, ainda que tenha tido certa pegada inovadora.

Uma trama que deveria ser bem mais do que é

Hoje em dia, todos sabemos da morte de Jason Todd – é uma história que a cultura pop conhece. Mas, embora esse tenha sido o grande destaque prometido para a publicação, trata-se de um lindo bolo cujo recheio não está gostoso – ou seja, quando nos referimos à morte em si, o antes e o depois são muito mais interessantes do que o durante. A preparação é muito interessante e nos traz a identificação com um garoto que finalmente vai descobrir um pouco mais sobre as suas origens: Batman e Robin partem para o mundo em busca da verdade sobre quem seria a mãe do Menino Prodígio.

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A trama é bem interessante até a fatídica cena, e é aí que a publicação começa a ter problemas. Faltou um pouco mais de drama, de modo que você sequer sente bem a tristeza de Bruce Wayne diante do acontecido. Quem morreu foi ninguém mais, ninguém menos que Robin, e isso deveria ser muito maior; as páginas não te marcam. O próprio Bruce Wayne percebe que não adiantaria ficar de luto, porque o mundo lá fora é muito maldoso, justificando sua frieza com a falta de escolhas. A ideia não é surreal, porque como podemos ver ele não está errado…. Mas soa pobre.

A grande polêmica presente em Morte em Família reside na forma brutal como Robin foi morto. Se você não leu, mesmo assim provavelmente já sabe de que Jason Todd foi vítima de golpes de pé-de-cabra dados pelo Coringa sobre suas costas, que logo em seguida explode todo o local e o assassina. E a leitura a essa altura é, literalmente, direta: são vários os quadros, friamente apresentados, da violência praticada pelo Joker. E só.

É pouco, frieza demais, mesmo para o Batman e para a DC. Devemos reconhecer que era intenção do roteiro mostrar justamente o sangue-frio da violência trazida pelo Coringa. A falta de emoção poderia ser proposital, mas é injustificável perceber que Bruce mal esteve triste no funeral do menino, e isso quando o próprio Wayne percebe que tem poucas pessoas presentes no enterro. Dá a impressão de que é normal ver uma pessoa boa partir sem prestígio.

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Na consequência, no entanto – isto é, depois da morte de Todd – a coisa volta a ficar bem mais interessante. Após o ocorrido, Batman começa a aproximar dos limites que possui como herói, insinuando que buscará vingança e “fará o que precisar fazer”, ao contrário de um outro certo personagem de Krypton que vai ao seu encontro e tenta abafar a tentativa em prol da lei. Este é o herói tomado por vingança e sem um sidekick: sem grandes empecilhos, seu lado corrupto pode aflorar mais rapidamente. Supes e Batz tem um diálogo interessante sobre lei e justiça e, embora se respeitem, reconhecem em si mesmos alguma autossuficiência, satisfatória para tomar atitudes que condizem apenas com seus próprios ideais e visões de mundo particulares.

 

Outras mídias e o futuro de Batman sem Todd

Com a morte de Todd, futuramente um outro personagem vestiria a roupa como ajudante do Batman: Tim Drake. O episódio também serviu para acirrar ainda mais o ânimo entre Batman e Coringa, que àquela altura também já tinha cometido barbaridades contra uma outra personagem importante na DC Comics. Além disso, ao longo dos anos a morte de Todd seria citada por vezes como um dos grandes fatores que virão a compor a personalidade de Bruce Wayne…. Talvez, a morte de seu parceiro tão tradicional seja comparável à morte dos seus pais em importância para sua personalidade.

O acontecimento já foi citado em outras mídias também. Você deve se lembrar dessa cena em Batman v Superman (2016), que já tinha aparecido até mesmo nos trailers.

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Em Esquadrão Suicida (2016), também vimos nitidamente a inscrição “cúmplice do assassinato de Robin” quando é mostrada a ficha de Harleen Quinzel, a nossa linda e queridíssima Harley Quinn – a Arlequina da deliciosa Margot Robbie.

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Enfim, são vários os exemplos, que vão de quadrinhos a games. Com toda a certeza, se por um lado a história em si deixa um pouco a desejar em dramaticidade, a importância e a relevância da trama no contexto da DC pelos anos vindouros é incontestável. O conto pesou sobre os ombros de todos, envolvidos ou não, e esteve na boca dos fãs por muitos anos. Mais tarde, Morte em Família e o fim de Todd seriam precedentes para outro título extremamente importante na cronologia da nossa editora favorita: a nova versão do Capuz Vermelho. Em Batman Contra o Capuz Vermelho (2010), vemos uma nova linha do tempo e uma versão alternativa dos eventos de Morte em Família também, com novas motivações inclusive para Robin.

Por seus infinitos desdobramentos, Morte em Família pode ser passível de críticas – está muito longe de ser realmente bom – mas jamais pode ser ignorado. Afinal, quem realmente era Jason Todd? Um rapaz problemático, mas de bom coração; um garoto que lutou numa guerra de homens e perdeu, numa história que não valoriza sua real importância.

*Agradecimentos ao Shô, como sempre!

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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