OPINIÃO | Asilo Arkham, de Morrison, reflete limites da loucura

 

Nesta décima análise, conheceremos um lugar diferente. Um lugar que concentra o medo, o poder, a angústia, a fúria… a insanidade. Dizem que de louco, todo mundo tem um pouco. Todo mundo mesmo? Charles Manson? Adolf Hitler? Você? Eu?

Batman?

Ora… então, abram as portas do Asilo.


 

1 – O CONTEXTO
Ficha técnica reduzida de Asilo Arkham. CLIQUE AQUI PARA AUMENTAR

O Asilo Arkham é uma das instituições mais importantes da mitologia do Batman e da DC Comics. Trata-se de um hospital psiquiátrico, no qual vários dos maiores inimigos do Morcego de Gotham e da sociedade estão alojados e são seus internos. O estabelecimento foi coberto em várias sagas da DC (como Batman: A Piada Mortal), e também em seus desenhos animados, além de ter sido tema recorrente na série de games Arkham e ter um jogo baseado no próprio asilo – Batman: Arkham Asylum, que é sucesso de vendas e crítica.

Houve um momento, no final dos anos 80, em que toda a sociedade de quadrinhos mudava: Watchmen, de Allan Moore, era o grande petardo da época. A série de 1986 virou os contos enfadonhos de heróis de cabeça para baixo, expondo fórmulas e incentivando a ideia adulta, sombria e densa de quadrinhos, enquanto desconstruía ideias prontas e recriava motivações. E foi aí que um certo escritor, britânico assim como Moore, optou por desafiar a nova ideia. Vamos entender: se Watchmen era a contestação ao Establishment, esse rapaz queria “contestar o que já era contestação”, indo por um novo caminho; em outras palavras, uma espécie de terceira via, que não abraçaria nem o comumente aceito para quadrinhos, e nem a abordagem realista habitual da época comum a Moore e Miller, posteriormente. Tratava-se de Grant Morrison: um escritor iniciante, chegado à contracultura e a subverter o que está certo e pronto. Por que ser realista, como Watchmen, se é possível ser completamente imprevisível? Por que mostrar o que é tátil, mundano e claro se o que é intangível e onírico é tão mais vasto? Guarde essa ideia: ela será importante.

Batman enfrenta seus medos mais internos. CLIQUE PARA AUMENTAR.

Após bastante tempo debatendo o que seria uma abordagem ao Asilo Arkham, Morrison decidiu dar seu próprio viés artístico à localidade. Com isso, obteve muitas influências, de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas assombra o texto do início ao fim) a Carl Jung, de Cocteau a Física Quântica. Após um ano de pesquisa, por um mês de ideias em profusão ele colocaria tudo em prática e escreveria uma das melhores histórias da DC e do Batman. E foi aí que nasceu Asilo Arkham – Uma séria casa em um sério mundo, que além de escrita por Grant, ainda foi desenhada por ninguém menos do que Dave McKean, o mesmo monstro alienígena que daria vida às capas do legendário Sandman, de ninguém menos que Neil Gaiman.

Grant se tornaria um ícone dos quadrinhos mais tarde, e seu caminho para o estrelato teria início em Arkham. A partir daqui ele se tornaria um escritor bastante conhecido e colocaria suas mãos em várias franquias de sucesso, como Batman, Superman e Liga da Justiça da América.

2 – OS ACONTECIMENTOS

ATENÇÃO! O texto a seguir contém spoilers. Recomendamos fortemente a leitura particular da obra, para que você tire suas próprias conclusões.

Seguem então os principais acontecimentos da saga, dispostos na ordem apresentada (adaptado de Wikipedia/US).

  • A história começa com um Flashback. Nela, Amadeus Arkham, o arquiteto e primeiro administrador do Asilo Arkham, detalha a reforma da propriedade familiar, a qual viraria tal estabelecimento após a morte de sua mãe e a consequente herança do prédio.

 

  • Eis que teríamos uma rebelião: no dia Primeiro de Abril, o Comissário Gordon informa Batman de que os pacientes do Asilo Arkham tomaram as instalações, ameaçando matar a equipe se Batman não se encontrar com eles. Por comunicação do Coringa, inclusive uma menina chamada Pearl é ameaçada; Pearl era cozinheira de Arkham há apenas alguns dias. Em seguida, se escuta um ruído de raspagem e Coringa faz com que ela abra os olhos, levando Bruce e Gordon a crer que ela seria mutilada se sua vontade não fosse respeitada. Batman, a contragosto (numa passagem espetacular, Bruce diz ter medo de se sentir louco como os demais, e que no fechar dos portões, teme se sentir voltando para casa), se submete então à pressão e se dirige ao Asilo Arkham.

 

  • Entre os reféns está o Dr. Charles Cavendish, o administrador de Arkham, e a dra. Ruth Adams, uma das terapeutas da equipe. Os pacientes são liderados pelo Coringa, que mata um guarda para estimular Batman a obedecê-lo. Enquanto isso, a condição mental de Dent se deteriorou como resultado da terapia da dra. Adams. A intenção da doutora, no entanto, tinha lógica: ela trocou a moeda — marca registrada do Duas-Caras — por um dado de seis lados, e depois por uma coleção de cartas de tarô. Isso faria com que, a cada mudança, o número de escolhas de Dent gradualmente aumentasse (e não estagnasse apenas nas duas resultantes dos dois lados da moeda), e com isso, eventualmente ele próprio se daria conta de que ele pode tomar qualquer decisão que quiser sobre o que vivencia, diante de inúmeras opções. Dessa forma, a doutora planejava demonstrar a Dent que a sua obsessão pela dualidade (certo x errado, branco x preto, culpado x inocente, sim x não) era reducionista e equivocada, se comparada ao comportamento de uma mente que tem total liberdade de escolha.
Para Dent, a lua é uma moeda que foi jogada. Veja o resultado. CLIQUE PARA AUMENTAR.

 

  • No fim, a dra. Adams esperava estar fazendo o seu trabalho, inclusive usando o nome original Harvey Dent (e não seu codinome vilanesco) e lembrando Batman de que aquele era um hospital – portanto, estava tentando se tratar de um doente mental, no fim das contas. O problema é que o tratamento causou o efeito contrário, e o excesso de opções fez com que Dent criasse hesitação suficiente para não mais decidir nem mesmo coisas básicas, como “quando ir ao banheiro”. Dent faz suas necessidades no chão, e este é o gatilho que dispara o diálogo acima.

 

  • O Coringa força Batman a brincar de esconde-esconde, dando a ele uma hora para fugir de Arkham antes que seus adversários sejam enviados para caçá-lo nas instalações (lembrando que o Asilo Arkham contava com vários dos inimigos do Batman àquela altura). No entanto, sem que Batman soubesse, o Coringa encurtou o tempo (que até então era de uma hora) após ser pressionado pelos outros internos. Pouco tempo depois, Batman encontraria Cara-De-Barro, Chapeleiro Louco, Espantalho e o vilão Maxie Zeus, interagindo rapidamente com eles.
O Crocodilo está realmente repugnante na arte de McKean. CLIQUE PARA AUMENTAR.
  • Durante um enfrentamento com o Crocodilo, Batman é arremessado por uma janela, e acaba se segurando na estátua do Arcanjo Miguel para não cair. Se agarrando à lança de bronze da estátua, Batman escala de volta, impala o Crocodilo e, em seguida, o atira pela janela. A lança causaria também um enorme ferimento no corpo de Bruce.

 

  • Batman então chega a uma sala secreta, nos cômodos superiores de Arkham. Lá, ele descobre Cavendish vestido de forma estranha e ameaçando a dra. Adams com uma navalha. É revelado então que ele orquestrou todo o motim: quando questionado por Batman, Cavendish fez com que ele lesse uma passagem do diário do próprio criador do asilo, Amadeus Arkham. Em Flashbacks, foi revelado que a mãe de Amadeus que também era doente mental, chamada Elizabeth, sofria ilusões de ser atormentada por uma entidade sobrenatural. Após acreditar ter visto a própria criatura, um morcego, Amadeus corta a garganta de sua mãe para dar fim ao seu sofrimento. Ele bloqueou essa memória, mas ela voltou à tona quando um interno do asilo, Martin Hawkins (o Cachorro Louco), estuprou e assassinou sua filha e sua esposa.

 

  • Traumatizado, Arkham se vestiu com o vestido de noiva de sua mãe e pegou a navalha, jurando cercar o espírito maligno do morcego com magia. Ele tratou do Cachorro Louco por meses até matá-lo eletrocutado, durante uma sessão de terapia. Arkham continuou sua missão mesmo após ficar encarcerado em seu próprio asilo.

 

  • Usando suas próprias unhas, ele riscou as palavras de um feitiço de contenção por toda a sua cela, até que morresse. Após descobrir sobre a existência do diário, da navalha e do vestido, Cavendish passa a acreditar que é um predestinado para a continuação do trabalho de Arkham. Em um Primeiro de Abril – num aniversário do assassinato da família de Arkham – Cavendish liberou os pacientes e atraiu Batman ao asilo, acreditando que ele fosse o morcego do qual Arkham falava. O administrador do hospital psiquiátrico então o acusou de alimentar o mal presente na localidade por trazer para ele mais almas insanas (o resultado do combate ao crime). Batman então tenta convencer Cavendish de que ele é doente e precisa de tratamento, mas Cavendish responde à essa declaração atacando Batman. Eles se enfrentam até que a dra. Adams corta a garganta de Cavendish com a navalha.
É hora de brincar! CLIQUE PARA AUMENTAR.
  • Portando um machado, Batman derruba a porta da frente do asilo, declarando aos internos que eles estão livres. O Coringa se oferece para tirar sua vida. O Morcego de Gotham obtém a moeda do Duas-Caras, em posse de Adams, e retorna-a para seu dono, declarando que a decisão sobre o seu destino deveria ser de Duas-Caras. Harvey declara então quais serão os termos: se, após jogar a moeda, ela estiver com a parte arranhada para cima, eles matarão Batman; se for a parte lisa da moeda a estar para cima, Batman estará livre. Dent então lança a moeda e, por fim, libera Batman para ir embora. O Coringa se despede de Batman, provocando-o ao dizer que, se a vida algum dia complicar demais no “asilo” (referindo-se ao mundo do lado de fora, metaforicamente), então ele sempre terá seu lugar em Arkham. Enquanto Batman some na escuridão, Duas-Caras fica observando a moeda e é revelado que, após ter sido jogada anteriormente, a parte resultante da jogada foi a riscada, e que por isso Batman deveria ter sido morto. É aí que ele se vira para uma pilha de cartas de tarô e recita uma passagem de Alice no País das Maravilhas: “Quem se importa com vocês? Vocês não passam de uma pilha de cartas”, mostrando que Dent finalmente toma decisões por si só.
Adições na edição comemorativa

Na edição comemorativa, tivemos extras, como por exemplo os comentários dos autores a respeito de muito da simbologia espetacular do título. Aqui, vão alguns desses pontos destacados, para fomento da sua leitura:

  1. Len Wein escreveu alguns parágrafos sobre a história do Asilo Arkham, e foi ali que Morrison tomou nota do personagem Amadeus Arkham e dos acontecimentos que rondaram a localidade e sua família. Arkham teria enlouquecido após a Crise de 1929;
  2. A ideia de Duas-Caras surgindo no texto foi de Jim Clement, o mesmo com quem Grant passou um tempo discutindo o assunto. Já a noção da progressão do número de escolhas de Dent foi de autoria de Morrison;
  3. Nas primeiras versões do script, Batman iria ferir o Crocodilo por inserir o cinto de utilidades em volta do seu pescoço.

Recomendamos que faça a leitura para ter acesso ao restante das informações e nos diga o que achou das inúmeras referências de Morrison. Elas realmente enchem os olhos.

 

3 – A AVALIAÇÃO

Existem diferenças grandes na abordagem deste título em relação a certas convenções que temos do Universo DC até aqui. Batman costuma se antecipar aos eventos e se utilizar bastante de seu próprio pragmatismo, ser bastante voltado aos seus Gadgets, à sua perícia, inteligência e capacidade de prever passos com base na mentalidade alheia. Aqui, Batman é propositalmente enfraquecido e desconstruído – posto sob um mal um tanto quanto intangível, se encontrando despreparado, ferido e amedrontado. A passagem em que Bruce diz ter medo de entrar em Arkham e se sentir um interno é fortíssima e estabelece claramente a ideia de Morrison de manter o personagem em constante conflito – dessa vez, consigo mesmo.

A simbologia de Morrison é um espetáculo à parte. Referências a Jung, Freud e Lewis Carroll, entre outros autores e conceitos notáveis, ajudam a imergir Asilo Arkham numa espécie de universo completamente original – onde as regras podem ser quebradas, e o tempo e espaço mais parecem um pesadelo. A ilustração de Dave Mckean é impressionista e complexa, mostrando tudo por uma ótica um tanto delirante, pesada… insana. É como se o leitor, em pouco mais de cem páginas de trama, se tornasse um de seus detentos. Por esse mesmo motivo, dada a importância da estética, este é o tipo de história que você não quer ler no mesmo ritmo das demais. Aqui, mais do que enxergar a visão diferente que Morrison traz, é necessário ler devagar e apreciar cada página.

Asilo Arkham é uma história menos objetiva, muito mais densa do que a DC comumente costuma fazer. E isso em momento nenhum significa decréscimo de qualidade. Muito pelo contrário: a construção tem duas linhas do tempo, onde uma conta a história de Arkham, e a outra conta a de Batman num possível mundo atual (embora os próprios autores, enxergando a diferença na pegada, optam por se utilizar nos espaços de comentários da versão de aniversário que Batman pode ser imaginado acordando depois que a saga termina, a caracterizando como um pesadelo). O conto é bastante coerente e apesar de priorizar perguntas às respostas, dúvida e instabilidade em vez de firmeza e afirmações claras, não deixa margens para dúvidas pela forma como é desenvolvido.

Por fim, a problemática é de altíssimo nível e se destaca. Onde a loucura nos leva? O que acontece se cairmos no abismo que sempre esteve ali, em nossa própria mente, nos mostrando um perigo desconhecido a todos os outros? A insanidade é exclusiva de alguém? Ou somos todos reféns do que está por vir? O que acontecerá quando falharmos? Estaremos entregues? Por mais preparados que sejamos, estaremos realmente bem para enfrentar os nossos piores dias? Humanidade significa precisão? Ou será que significa incerteza?

A sombra indefinida, que expressa a exata caracterização de Batman escolhida pelos autores para quadros comuns, talvez revele melhor o que somos do que o realismo dos nossos dias. Bruce, Harvey, Coringa, Arkham… são todos pessoas como outras quaisquer. A única coisa que separa uma da outra é o lado para a qual a sombra aponta. Mas ainda assim, não se deve criar problemas por conta do quão louco alguém seja.

É que, como diz o Chapeleiro em Alice, as melhores pessoas o são.

Arte: 10.0

Roteiro: 9.0

Envolvimento: 9.5

Nota: 9.5

 

 

P.s.: Fique atento à página do Sindicato Nerd, no Facebook. Faremos uma comemoração em breve por essa humilde marca inicial de dez análises de quadrinhos da DC.

 

Slip Questão

Acadêmico de tecnologia, fã de séries, animes e filmes, programador, editor de vídeo, legendador, tradutor, leitor da DC Comics e guitarrista. Carioca nem sei o porquê. Mas acredita que o melhor sabor de pizza é de calabresa, que tempo bom é frio e chuvoso, e que a guitarra que toca nunca será mais importante do que a música que escuta.

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