Batman vs Superman Parte V – Analisando a famosa batalha usada como modelo

Agora que já vimos os capítulos anteriores e entendemos porque a maioria das pessoas acredita que o Batman venceria uma batalha contra o Superman, e os motivos que levam a editora e seus roteiristas a diminuírem ou ignorarem todo o poder do Homem-de-Aço em várias histórias, podemos, enfim, analisar o confronto que difundiu essa crença equivocada na “vitória” do Cruzado Encapuzado.

Michael Shermer, em seu livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas (Why People Believe Weird Things – 1997), onde estuda a tendência das pessoas em acreditar em coisas fantasiosas – ainda que os fatos as desmintam – afirma que:

“Uma coisa provavelmente se revela pseudocientífica quando é apresentada com afirmações grandiosas sobre o seu poder e a sua veracidade, mas é sustentada por uma evidência tão escassa como os dentes de uma galinha. […] quanto mais extraordinária for a afirmação, mais extraordinariamente bem testada deverá ser a sua evidência.”

Ou seja, por mais que queiramos acreditar em determinadas coisas, principalmente com base em afirmações espetaculosas, se as premissas que nos levam a essa crença são falhas, então, mesmo contra nossa vontade, temos que aceitar a impossibilidade do que foi afirmado. E quanto mais incrível é o afirmado, então, mais testadas devem ser as premissas, para que se provem verdadeiras.

BatmanVsSuperman12 - CerebroVsForcaOra, acreditar que um homem comum (sem poderes) como Bruce Wayne, ainda que muito inteligente e dotado de recursos tecnológicos extraordinários, pode vencer em uma luta a Kal-El, o mais poderoso personagem que não seja uma entidade cósmica do Universo DC Comics, é algo um tanto quanto extraordinário. Assim, precisamos ver se esse fato se sustenta com base em um estudo racional sobre a tão famosa luta entre Batman e Superman de DK, que alicerça quase toda a crença nesse fato.

Quando revemos a batalha mostrada por Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas, a mesma mostra-se, diante de uma análise investigativa, um absurdo completo, e jamais poderia ser levada a sério, tamanha a quantidade de incongruências mostradas, de impossibilidades físicas perpetradas e também pelo comportamento nada factível de Kal-El no curso do embate.

O Superman experiente e vivido da história mais parece um calouro que jamais enfrentou uma batalha, comete erros primais, e é incompreensivelmente hesitante, além de não usar seus poderes em nível sequer mediano em nenhum instante, mesmo diante da resistência e das surpresinhas do oponente. E isso mesmo se considerarmos que em momento algum ele objetive matar ou machucar seriamente o Batman.

O desenrolar da luta não faz o menor sentido para quem não é roteirista da história e tem preferências sociopolíticas sobre resultado da mesma, ou então para quem não é, como leitor, um fã inveterado do Cruzado Encapuzado.

De início, Kal tem sua visão sobre-humana que lhe permitiria ver a ligação da armadura do Batman no poste, o que lhe deveria fazer tomar providências a respeito, usando a visão de calor, à distância, por exemplo, para desplugar o adversário, mas ele não toma nenhuma atitude.

Depois, sua super-velocidade deveria ser usada para impedir Bruce de disparar a arma sônica, antes que o mesmo sequer conseguisse levantar totalmente a arma, mas novamente o Azulão parece que não sabe as capacidades que tem, e nada faz. É passivo, humanamente lento e reativo.

BatmanVsSuperman12 - Luta2

A luta, portanto, que sequer poderia ter começo, no roteiro tendencioso do libertarian Miller, tem início com o Morcego desferindo seus primeiros golpes contra o Superman.

Mas vamos dar um desconto ao nosso amigo Frank Miller, e vamos considerar que Kal-El é inexperiente e tem reações meramente humanas a ponto de deixar a briga chegar ao ponto do disparo sônico. O que acontece depois? Batman parte para um confronto físico, e começa a socar e chutar o Homem-de-Aço.

Muito [ironia mode on] “inteligente” da parte dele, tentar bater em alguém que é mais forte e resistente que sua armadura… [ironia mode off]. Inclusive, durante essa parte da briga, Bruce tem seu capacete arrancado com facilidade pelo Super, o que demonstra como o metal em questão não lhe causa nenhuma dificuldade.

Ora, se o oponente manipula aquele metal como se fosse papelão, e se Kal é muito mais resistente que a liga usada na confecção da armadura, como é que ela não se amassa ou despedaça quando Batman acerta os socos no adversário, com força suficiente para feri-lo e derrubá-lo? Que leis da física Miller usou ali?

(sim, mesmo em HQs, as leis da física devem – e normalmente são – respeitadas… e as violações precisam de argumentos fundamentados para ativar nossa “suspensão de descrença” e nos fazer acreditar nelas)

Fica difícil esquecer esses detalhes e tentar continuar analisando a batalha sem perdermos tempo reparando em [cinismo mode on] outras coisas triviais como a possibilidade real da energia da cidade toda – como diz o próprio Batman – poder estar canalizada na armadura através de alguns poucos fios de bitola fina [cinismo mode off].

BatmanVsSuperman12 - ArmaduraAliás, energia nenhuma na armadura justificaria Bruce conseguir derrubar o Azulão com um soco, a menos que a energia fosse usada para um mecanismo de impulso/propulsão, senão seria o mesmo que um humano normal socar uma parede com muita força.

De novo, que leis da física Miller aplicou ali?

Também fica difícil não nos atermos ao motivo do Homem-Morcego ter deixado pra usar a kryptonita só no fim da briga, ao invés de levá-la consigo na armadura para tê-la à mão quando quisesse… sem falar que Bruce deixou para seu comparsa a “responsa” de, na hora cronometrada, usar a substância, e o mesmo poderia não chegar no local a tempo, poderia ser capturado, ser ferido, morto… afinal, estava sendo caçado e em meio a uma batalha.

A estratégia, tirando a dramaticidade que acrescenta à história, não tem fundamento técnico algum. Não é crível.

Na sequência da luta, Superman finalmente acerta uns golpes e derruba o Cavaleiro das Trevas, mas novamente age de forma inexperiente e incompreensível, deixando seu perigoso oponente livre, leve e solto para se levantar e usar novos truques, como ácido e bombas, ao invés de imobilizá-lo, ou deixá-lo inconsciente.

E nada de super-velocidade sendo usada, novamente… O Homem-de-Aço simplesmente deixa o Morcego fazer o que quer, para apenas reagir. Não dá pra entender. Quer dizer… dá sim, não é Frank Miller?! 😉

A coisa fica ainda menos plausível se considerarmos que antes de partir para a briga, Superman “avisa o presidente que o Batman jamais se renderia”, ou seja, ele sabia que precisava ser duro e subjugar o oponente, pois na base da conversa não teria sucesso. Seu comportamento, portanto, é inexplicável. E, novamente, nem estamos considerando que ele precisava matar o Batman… trata-se apenas de derrotar um oponente fácil.

BatmanVsSuperman12 - DKNo momento seguinte, quando Oliver Queen finalmente dispara a flecha (!) com kryptonita, mais uma vez vemos uma atitude impensável para o ser não-entidade mais poderoso da DC: ele não usa nenhum de seus poderes ou capacidades antes da chegada da mesma, e quando ela está ao seu alcance, ele aí sim usa sua super-velocidade para… pegá-la na mão!

Impressionante a falta de sagacidade que Miller imputa ao ex-líder da Liga da Justiça, que passou por batalhas épicas contra seres do porte físico e mental de Darkseid, Imperiex, Despero, Metallo, Brainiac, Sinestro, Lex Luthor e outros.

Depois de mais essa patacoada, aí sim (descontadas ainda algumas ações inverossímeis) podemos aceitar a sequência da briga, que é razoavelmente coerente, com o Superman combalido pela kryptonita sendo – de forma um pouco mais crível – agredido pelo Batman.

Ainda assim o roteirista dá suas escorregadas, já que por mais que o comprimido que Bruce tenha inalado possa ter feito seu coração parar por tanto tempo, não seria capaz de enganar os sentidos do Homem-de-Aço, a despeito dele não ter notado que seu oponente, mesmo com o coração parado, estava vivo. Os mesmos sentidos depois captaram a pulsação do Morcego mesmo com o corpo enterrado e dentro de um caixão. Novamente, muito conveniente.

BatmanVsSuperman51 - Realidade2Como vimos, portanto, a tão famosa batalha entre Batman e Superman, usada como parâmetro para todo batfan justificar a idéia de que Bruce Wayne derrotaria Kal-El em uma luta, é total e absolutamente implausível e tem furos abissais no roteiro, que vão desde desrespeito às leis da física quanto à retratação bisonha e extremamente limitada das capacidades e poderes do Homem-de-Aço, o super-herói “normal” mais overpower das HQs.

>>> Update (01/05/15)

Muitos batfans se manifestaram no Facebook a respeito desse capítulo, justificando o resultado da luta pela fraqueza do Superman na época da batalha, por conta da explosão do míssil soviético e da ausência de luz solar causada pela nuvem que cobriu a região.

Primeiro que o problema é que nada indica que o Homem-de-Aço estava tão mal quanto os admiradores do Morcego gostariam. Mais de uma semana havia se passado, ele já tinha se recuperado totalmente na sua compleição física e, caramba, achar que o Superman não voaria para cima das nuvens pelo tempo que fosse preciso para se recarregar chega a ser de uma parcialidade quase inacreditável. E o tempo que durou a luta, sem a exposição aos raios solares, é mínimo… achar que isso o afetaria tão rapidamente e significativamente é o mesmo que achar que, ao acordar de manhã – sem ter se exposto ao sol a noite – o Superman seria uma pessoa normal. Equívoco sem tamanho.

Além disso, o que vale para um tem que valer para o outro. Caso Kal estivesse tão enfraquecido por causa de um evento ocorrido mais de uma semana antes da batalha, Bruce também estaria, já que praticamente ao mesmo tempo escapou por pouco de uma perseguição da SWAT na qual explodiu um edifício onde ele mesmo estava… a coisa foi tão feia que ele foi levado para a Batcaverna onde foi tratado por Alfred (com direito a suturas e um comentário pesado como “Creio que irá sobreviver”). Então, se Superman não estava 100%, Batman estava ainda menos.

BatmanVsSuperman50 - Realidade1A imagem da página ao lado mostra como seria uma cena mais “real” do Batman tentando dar um soco em um oponente que tem os sentidos milhares de vezes mais aguçados, além de ser superveloz como o Flash (clique para ampliar). No diálogo entre ambos, nessa página, Kal ainda lembra Bruce sobre o que aconteceria caso ele ficasse parado e se deixasse acertar: o Morcego quebraria todos os ossos da mão.

Ainda vale lembrar que para reagir da maneira como precisava para impedir Bruce de lhe atacar, o Superman não precisaria estar 100%. Nem perto disso, na verdade. Uma parcela razoável de suas capacidades como força e velocidade ainda resolveriam a questão facilmente, se o roteirista fosse isento.

Por fim, mesmo considerando que ele estivesse tão fraco quanto os batfans querem, isso em nada influenciaria as leis da física que Frank Miller distorceu ou ignorou para permitir que momentos chave da batalha acontecessem conforme ele desejava e como precisava, para poder “enganar” seus leitores, fazendo-os crer que tudo aquilo seria possível, o que mostrou-se totalmente implausível, conforme demostrado nesse capítulo.

Para encerrar, vejamos aqui novamente como seria uma batalha factível entre o Superman e o Batman:


Este artigo foi publicado originalmente no Maxiverso.


Confira nos links abaixo os demais capítulos deste estudo:

Parte I – Frank Miller subverte o Batman e muda seu status
Parte II – Liga da Justiça de Grant Morrison perpetua a distorção
Parte III – A DC diminui o Superman e aumenta o Batman
Parte IV – Por que a maioria gosta mais do Homem-Morcego
Parte V – Analisando a famosa batalha usada como modelo (lendo este)
Parte VI – Exemplos de lutas contra um Homem-de-Aço verossímil
Parte VII – O veredito é: essa luta tem uma vitória fácil e lógica


Ralph Luiz Solera

Escritor e quadrinhista, pai de uma linda padawan, aprecia tanto Marvel quanto DC, tanto Star Wars quanto Star Trek, tanto o Coyote quanto o Papaléguas. Tem fé na escrita, pois a considera a maior invenção do Homem... depois do hot roll e do Van Halen, claro.

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